Exhibition views
1 de 24
Works
Slideshow
Joëlle Tuerlinckx, <em>Salle-basine ‘gris neutral Kodak’</em>, 2010, objet trouvé (bassine plastique), pigment dispersion, objet trouvé rehaussé 'gris neutral kodak' (plinth bois), 3 spots Richardson, programmateur dmx (éclairage variable, disposition des sports variable, cycle variable) - Mendes Wood DM
Francesco João Scavarda, <em>sem título</em>, 2016, guache sobre tela crua, 30 × 48 × 4 cm - Mendes Wood DM
Hamza Halloubi, <em>To Leave</em>, 2011, video, 3’40’’ - Mendes Wood DM
Dan Coopey, <em>sem título (Xia / Sinai),</em> 2017, vime, noz, grão, madrepérola, chiclete e carvalho, 82 × 35 × 23 cm - Mendes Wood DM
Dan Coopey, <em>sem título (Xia / Sinai),</em> 2017, vime, noz, grão, madrepérola, chiclete e carvalho, 82 × 35 × 23 cm - Mendes Wood DM
Matthew Lutz-Kinoy, <em>Meeting the sun (torso schematic); Walking the Path Worn in the Grass; Nature without check (lower schematic)</em>, 2017, acrílica sobre tela,  esquerda 362 × 313 cm / centro 362 × 474 cm / direita 362 × 307 cm - Mendes Wood DM
Dominique Gonzalez-Foerster & Manuel Raeder, <em>BLACK MOUNTAIN left arm</em>, 2016, aço coberto por tinta spray, resina e tinta acrílica, 100 × 53 × 47 cm - Mendes Wood DM
Christina Mackie, <em>Rescue,</em> 2017, aluminio, nanquin, tinta e tela, 5 × 110 × 55 cm - Mendes Wood DM
Rodrigo Hernández, <em>The Metaphor of the Spider (The Beating),</em> 2012, papel machê, madeira, fio de algodão, cabo de cobre revestido de borracha, resina de poliéster lixada, acrílica, laca metálica, lápis de cor, grafite, 190 × 88 cm - Mendes Wood DM
Djordje Ozbolt, <em>The Third Eye</em>, 2016, figura africana, tinta acrílica, 50 × 20 × 20 cm - Mendes Wood DM
Djordje Ozbolt, <em>Full Moon,</em> 2016, acrílica sobre tela, caneta e tinta sobre papel, 99,5 × 90 cm - Mendes Wood DM
Meriç Algün Ringborg, <em>Infinity and Eternity</em>, 2013, 2 digital video , 11’34” / 12’19” loop - Mendes Wood DM
Paloma Bosquê, <em>Duas Pedras</em>, 2017, lençol de chumbo, hastes de latão, lã feltrada a mão e cera de abelha com breu, 202 × 212 × 34 cm - Mendes Wood DM
Djordje Ozbolt, <em>Stranger in a strange land,</em> 2016, acrílica sobre tela, 152 × 121,5 cm - Mendes Wood DM
Lucas Arruda, <em>sem título</em>, 2016, óleo sobre tela, 30 × 34 cm - Mendes Wood DM
Luiz Roque, <em>Ancestral</em>, 2016, HD video, 4’44” - Mendes Wood DM
Erika Verzutti, <em>Starfruit Lamp,</em> 2009/2017, bronze, 68 × 12 × 12 cm - Mendes Wood DM
Mariana Castillo Deball, <em>Nobody (No. 15)</em>, 2008, desenho, aquarela, impressão fotografica sobre papel, 48 × 36 cm - Mendes Wood DM
Sonia Gomes, <em>sem título</em>, 2017, costura, amarrações de tecidos e rendas variadas, 49 × 20 × 7 cm - Mendes Wood DM
Kasper Bosmans, <em>Legend: Specimen Days</em>, 2016, técnica mista, 28 x 21 x 1 cm (cada) - Mendes Wood DM
Adriano Costa, <em>DownToGreeeeeeceStudies/PacoRabanne</em>, 2017, Marcador e pintura eletrostática sobre chapas de latão laminadas, 80 × 45 cm  - Mendes Wood DM
Adriano Costa, <em>DownToGreeeeeeceStudies/PacoRabanne, </em>2017, Marcador e pintura eletrostática sobre chapas de latão laminadas, 10 × 10 cm - Mendes Wood DM
Otobong Nkanga, <em>Taste of a Stone: Things Fall Apart</em>, 2017, desenho - Mendes Wood DM
Rodrigo Hernández, <em>Gato Furado</em>, 2017, papel machê, laca, filme de acetato, madeira, papelão, ventilador de papel encontrado, tubo de plástico, outros materiais dentro de uma base com caixa de acrílico, 146 × 58 × 27 cm - Mendes Wood DM
Rodrigo Hernández, <em>Pedro</em>, 2012, papel, gesso, madeira em pó, 32 × 24 cm - Mendes Wood DM
Rosemarie Trockel, <em>sem título</em>, 2016, cerâmica e aço, 61 × 48.3 × 121.9 cm - Mendes Wood DM
Joëlle Tuerlinckx, <em>Titre-salle ‘gris neutral Kodak’</em>, 2005/2012, pigment dispersion, clous, carton ‘gris neutral Kodak’, éclairage variable (naturel ou artificiel), dimensões variáveis - Mendes Wood DM
Patricia Leite, <em>Laranjeira</em>, 2017, óleo sobre madeira, 33 × 21 cm - Mendes Wood DM
Paul Sietsema, <em>Circle painting</em>, 2016, esmalte sobre linho, 77 × 73 cm - Mendes Wood DM
Cibelle Cavalli Bastos, <em>sem título</em>, 2017, video performance via Instagram, 320' looping - Mendes Wood DM
Robert Janitz, <em>Model or Actor (Plays often start)</em>, 2016, óleo, cera sore linho, 63,5 × 50,8 cm - Mendes Wood DM
f.marquespenteado, <em>Proteger Sean</em>, 2014, saco de dormir de fibra sintética, bordado à mão e à máquina e cabide de madeira com pele de cordeiro, 187 × 80 cm - Mendes Wood DM
Giulio Delvè, <em>Camouflage</em>, 2015, gesso e pigmento, 71 × 69 × 3 cm - Mendes Wood DM
Jason Dodge,<em> Shoes that have been made forsomeone with three legs</em>, 2015, sapatos, dimensões variáveis - Mendes Wood DM
Katinka Bock, <em>Winterlandschaft mit Hut</em>, 2015, pedra calcária, feltro, pedra de areia, 5 × 60 × 90 cm - Mendes Wood DM
Mauro Restiffe, <em>O Aquário</em>, 2000, fotografia em emulsão de prata, 137 × 204 cm - Mendes Wood DM
Michael Dean, Analogue Series (músculo), 2014, concreto (cada), 10 × 19 × 7 cm - Mendes Wood DM
Patrícia Leite, <em>Nossa Senhora dos Prazeres</em>, 2016, óleo e pastel sobre papel, 30 × 21 cm - Mendes Wood DM
Franz West, <em>Sinnlos</em>, 2008, aço, verniz e resina sintética, 199 × 39 × 11,5 cm - Mendes Wood DM
Nina Canell, <em>Brief Syllable</em>, 2017, cabo de sinal subterrâneo, concreto, aço, 43 × 38,5 × 8 cm - Mendes Wood DM
Nicolas Deshayes, <em>Darling, Gutter,</em> 2015, jesmonita, plástico, latão, aço, água quente, 120,4 × 193,5 × 20 cm - Mendes Wood DM
Adriano Costa, <em>Spide Chair,</em> 2016, bronze, 30 × 30 × 45 cm - Mendes Wood DM
Alexandre da Cunha, <em>Fair Trade,</em> 2015, bordado em juta em colaboração com Luisa Strina, 65,5 × 93 cm - Mendes Wood DM
Christodoulos Panayiotou, <em>sem título</em>, 2015, 1 par de sapatos de couro e caixa de sapato, dimensões variáveis - Mendes Wood DM
1 de 44
Thumbnails
Joëlle Tuerlinckx, <em>Salle-basine ‘gris neutral Kodak’</em>, 2010, objet trouvé (bassine plastique), pigment dispersion, objet trouvé rehaussé 'gris neutral kodak' (plinth bois), 3 spots Richardson, programmateur dmx (éclairage variable, disposition des sports variable, cycle variable) - Mendes Wood DM
Francesco João Scavarda, <em>sem título</em>, 2016, guache sobre tela crua, 30 × 48 × 4 cm - Mendes Wood DM
Hamza Halloubi, <em>To Leave</em>, 2011, video, 3’40’’ - Mendes Wood DM
Dan Coopey, <em>sem título (Xia / Sinai),</em> 2017, vime, noz, grão, madrepérola, chiclete e carvalho, 82 × 35 × 23 cm - Mendes Wood DM
Dan Coopey, <em>sem título (Xia / Sinai),</em> 2017, vime, noz, grão, madrepérola, chiclete e carvalho, 82 × 35 × 23 cm - Mendes Wood DM
Matthew Lutz-Kinoy, <em>Meeting the sun (torso schematic); Walking the Path Worn in the Grass; Nature without check (lower schematic)</em>, 2017, acrílica sobre tela,  esquerda 362 × 313 cm / centro 362 × 474 cm / direita 362 × 307 cm - Mendes Wood DM
Dominique Gonzalez-Foerster & Manuel Raeder, <em>BLACK MOUNTAIN left arm</em>, 2016, aço coberto por tinta spray, resina e tinta acrílica, 100 × 53 × 47 cm - Mendes Wood DM
Christina Mackie, <em>Rescue,</em> 2017, aluminio, nanquin, tinta e tela, 5 × 110 × 55 cm - Mendes Wood DM
Rodrigo Hernández, <em>The Metaphor of the Spider (The Beating),</em> 2012, papel machê, madeira, fio de algodão, cabo de cobre revestido de borracha, resina de poliéster lixada, acrílica, laca metálica, lápis de cor, grafite, 190 × 88 cm - Mendes Wood DM
Djordje Ozbolt, <em>The Third Eye</em>, 2016, figura africana, tinta acrílica, 50 × 20 × 20 cm - Mendes Wood DM
Djordje Ozbolt, <em>Full Moon,</em> 2016, acrílica sobre tela, caneta e tinta sobre papel, 99,5 × 90 cm - Mendes Wood DM
Meriç Algün Ringborg, <em>Infinity and Eternity</em>, 2013, 2 digital video , 11’34” / 12’19” loop - Mendes Wood DM
Paloma Bosquê, <em>Duas Pedras</em>, 2017, lençol de chumbo, hastes de latão, lã feltrada a mão e cera de abelha com breu, 202 × 212 × 34 cm - Mendes Wood DM
Djordje Ozbolt, <em>Stranger in a strange land,</em> 2016, acrílica sobre tela, 152 × 121,5 cm - Mendes Wood DM
Lucas Arruda, <em>sem título</em>, 2016, óleo sobre tela, 30 × 34 cm - Mendes Wood DM
Luiz Roque, <em>Ancestral</em>, 2016, HD video, 4’44” - Mendes Wood DM
Erika Verzutti, <em>Starfruit Lamp,</em> 2009/2017, bronze, 68 × 12 × 12 cm - Mendes Wood DM
Mariana Castillo Deball, <em>Nobody (No. 15)</em>, 2008, desenho, aquarela, impressão fotografica sobre papel, 48 × 36 cm - Mendes Wood DM
Sonia Gomes, <em>sem título</em>, 2017, costura, amarrações de tecidos e rendas variadas, 49 × 20 × 7 cm - Mendes Wood DM
Kasper Bosmans, <em>Legend: Specimen Days</em>, 2016, técnica mista, 28 x 21 x 1 cm (cada) - Mendes Wood DM
Adriano Costa, <em>DownToGreeeeeeceStudies/PacoRabanne</em>, 2017, Marcador e pintura eletrostática sobre chapas de latão laminadas, 80 × 45 cm  - Mendes Wood DM
Adriano Costa, <em>DownToGreeeeeeceStudies/PacoRabanne, </em>2017, Marcador e pintura eletrostática sobre chapas de latão laminadas, 10 × 10 cm - Mendes Wood DM
Otobong Nkanga, <em>Taste of a Stone: Things Fall Apart</em>, 2017, desenho - Mendes Wood DM
Rodrigo Hernández, <em>Gato Furado</em>, 2017, papel machê, laca, filme de acetato, madeira, papelão, ventilador de papel encontrado, tubo de plástico, outros materiais dentro de uma base com caixa de acrílico, 146 × 58 × 27 cm - Mendes Wood DM
Rodrigo Hernández, <em>Pedro</em>, 2012, papel, gesso, madeira em pó, 32 × 24 cm - Mendes Wood DM
Rosemarie Trockel, <em>sem título</em>, 2016, cerâmica e aço, 61 × 48.3 × 121.9 cm - Mendes Wood DM
Joëlle Tuerlinckx, <em>Titre-salle ‘gris neutral Kodak’</em>, 2005/2012, pigment dispersion, clous, carton ‘gris neutral Kodak’, éclairage variable (naturel ou artificiel), dimensões variáveis - Mendes Wood DM
Patricia Leite, <em>Laranjeira</em>, 2017, óleo sobre madeira, 33 × 21 cm - Mendes Wood DM
Paul Sietsema, <em>Circle painting</em>, 2016, esmalte sobre linho, 77 × 73 cm - Mendes Wood DM
Cibelle Cavalli Bastos, <em>sem título</em>, 2017, video performance via Instagram, 320' looping - Mendes Wood DM
Robert Janitz, <em>Model or Actor (Plays often start)</em>, 2016, óleo, cera sore linho, 63,5 × 50,8 cm - Mendes Wood DM
f.marquespenteado, <em>Proteger Sean</em>, 2014, saco de dormir de fibra sintética, bordado à mão e à máquina e cabide de madeira com pele de cordeiro, 187 × 80 cm - Mendes Wood DM
Giulio Delvè, <em>Camouflage</em>, 2015, gesso e pigmento, 71 × 69 × 3 cm - Mendes Wood DM
Jason Dodge,<em> Shoes that have been made forsomeone with three legs</em>, 2015, sapatos, dimensões variáveis - Mendes Wood DM
Katinka Bock, <em>Winterlandschaft mit Hut</em>, 2015, pedra calcária, feltro, pedra de areia, 5 × 60 × 90 cm - Mendes Wood DM
Mauro Restiffe, <em>O Aquário</em>, 2000, fotografia em emulsão de prata, 137 × 204 cm - Mendes Wood DM
Michael Dean, Analogue Series (músculo), 2014, concreto (cada), 10 × 19 × 7 cm - Mendes Wood DM
Patrícia Leite, <em>Nossa Senhora dos Prazeres</em>, 2016, óleo e pastel sobre papel, 30 × 21 cm - Mendes Wood DM
Franz West, <em>Sinnlos</em>, 2008, aço, verniz e resina sintética, 199 × 39 × 11,5 cm - Mendes Wood DM
Nina Canell, <em>Brief Syllable</em>, 2017, cabo de sinal subterrâneo, concreto, aço, 43 × 38,5 × 8 cm - Mendes Wood DM
Nicolas Deshayes, <em>Darling, Gutter,</em> 2015, jesmonita, plástico, latão, aço, água quente, 120,4 × 193,5 × 20 cm - Mendes Wood DM
Adriano Costa, <em>Spide Chair,</em> 2016, bronze, 30 × 30 × 45 cm - Mendes Wood DM
Alexandre da Cunha, <em>Fair Trade,</em> 2015, bordado em juta em colaboração com Luisa Strina, 65,5 × 93 cm - Mendes Wood DM
Christodoulos Panayiotou, <em>sem título</em>, 2015, 1 par de sapatos de couro e caixa de sapato, dimensões variáveis - Mendes Wood DM
Text

Adriano Costa, Alexandre da Cunha, Ana Mazzei, Anna Zacharoff, Christina Mackie, Christodoulos Panayiotou, Cibelle Cavalli Bastos, Dan Coopey, Daniel Steegmann Mangrané, Djordje Ozbolt, Dominique Gonzalez-Foerster & Manuel Raeder, Dries Van Noten, Erika Verzutti, f.marquespenteado, Francesco João Scavarda, Franz West, Giulio Delvè, Hamza Halloubi, James Ensor, Jason Dodge, Joëlle Tuerlinckx, Kasper Bosmans, Katinka Bock, Laurent Dupont, Lawrence Weiner, Lucas Arruda, Luiz Roque, Mariana Castillo Deball, Matthew Lutz-Kinoy, Mauro Restiffe, Meriç Algün Ringborg, Michael Dean, Neïl Beloufa, Nick Mauss, Nicolas Deshayes, Nina Canell, Otobong Nkanga, Paloma Bosquê, Patricia Leite, Paul Sietsema, Rineke Dijkstra, Robert Janitz, Rodrigo Hernández, Rosemarie Trockel, Runo Lagomarsino, Sonia Gomes


Se eu tivesse que criar um deus, eu lhe daria um “entendimento lento”, um entendimento dos problemas pingado gota a gota. As pessoas que entendem rápido me assustam.

– Roland Barthes

NEITHER. 

Ao pensar uma exposição que inaugura uma galeria brasileira em Bruxelas, meu primeiro pensamento foi: o que eu penso, quando penso na Bélgica? 
Buscando um conceito para essa exposição, lembrei-me de uma conversa que certa vez tive com o meu avô. Meus avós eram grandes exploradores e na década de 1980 fizeram uma expedição ao redor do mundo cobrindo quatro continentes. Após seu relato dessa experiência, perguntei ao meu avô de qual lugar ele tinha gostado mais. Para minha surpresa, sua resposta foi: Bruxelas. Perguntei o porquê, e ele me disse que ali havia comida francesa em porções alemãs. 

Divagando sobre a anedota do meu avô e sua experiência nos anos 1980, o pouco que eu conheço sobre a história fragmentada do país me fez pensar no conceito de neutralidade. O termo “neutro” associado a uma política de estado é perturbador. Até que ponto é possível se manter imparcial em nome da estabilidade? Em vez disso, pensemos em “neutro” como a experiência de um estado de nuance na fronteira da linguagem e, consequentemente, na fronteira da cultura. 

Roland Barthes, em sua conferência sobre o Neutro em 1978, descreve sua metodologia de trabalho da seguinte forma: “Para preparar esse curso eu “passeei” a palavra “Neutro” por certo número de leituras, apoiado em um procedimento da tópica (...). Não passeei o Neutro ao longo de uma grade de palavras, mas de uma rede de leituras, ou seja, de uma biblioteca”. A biblioteca escolhida por Barthes, não por acaso, foi a de sua casa de campo no interior da França, segundo o autor, um lugar-tempo onde a perda de rigor metodológico é compensada pela intensidade e pelo gozo da leitura livre. 

Uma proposta de reflexão sobre os desdobramentos do Neutro, deslocando esse conceito para o contexto de uma exposição de arte, é, antes de tudo, uma procura livre por um outro modo de se fazer presente nos embates do nosso tempo. Vivemos em uma época em que a tomada de partido é urgente – como sempre foi –, mas as vias e os métodos para tal necessitam de revisão. O Neutro de Barthes não é consenso, indiferença ou tomada de partido, ao contrário, é ativo. É uma forma de burlar o paradigma antes que esse nos force a decidir entre um lado e outro. Onde há sentido há paradigma e o Neutro é a vontade de se manter no momento anterior à cristalização de qualquer conceito, ideia ou categoria reconhecível. O Neutro barthesiano vive na nuance e está sempre em busca de um terceiro termo que ofereça uma nova chave de entendimento, longe de qualquer oposição binária. 
 
No espaço expositivo, o Neutro barthesiano se materializa com a replicação livre de sua predileção por uma escrita em fragmentos, resultante de um afeto obstinado e não de uma metodologia rigorosa. Todos os trabalhos na exposição trazem em si a semente do Neutro flutuante. Alguns não se encaixam em categorias específicas e permanecem deliberadamente à margem da linguagem. Outros ecoam as “figuras” ou “cintilações” citadas por Barthes como possíveis corporificações do Neutro, como a androgenia, o sono, o deslocamento, a deriva, a fadiga e a falta de cor. 

Quais são os elementos necessários para criar uma atmosfera, um lar ou um espaço proposicional ativo – uma exposição como um ambiente acolhedor? A galeria é compartilhada por anfitriões e hóspedes, e o conceito de Barthes é como a primeira cadeira posicionada em uma casa vazia: a partir de sua presença os outros elementos se relacionam e negociam seus lugares. Barthes diz: “Eu não construo o conceito de neutro, eu exponho os neutros”. Assim como Barthes, nós não estamos à procura de uma definição, mas sim de um conjunto de instâncias.

Este novo espaço que agora nos une está entre a mudança e o sentir-se em casa, em um lugar entre Brasil e Bélgica, que já não é mais uma casa de família, mas que ainda não é uma galeria de arte em pleno funcionamento. Fazendo esta pausa consciente, que respeita a distância e o percurso da viagem, a exposição reconhece a harmonia e o conflito, ao mesmo tempo que toma o tempo necessário para a galeria tornar-se – novamente – o que já é.  

Fernanda Brenner







Menu