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3 novelas

11/29 2014 – 01/30 2015


O amor cria enredos que passam a delinear o destino dos sujeitos, e tanto corteja quanto desaponta aqueles que com ele se envolvem.

A vida é a arena dessas histórias de amor, uma encenação a céu aberto.

3 novelas amplifica estórias ficcionais que brotam da vida amorosa de um narrador com três de seus amantes ___ Sean, Javier e Jonas.

Na sala expositiva três painéis com colagens introduzem o perfil desses personagens. Jogos de desenhos e de bordados repousam em diferentes superfícies e suportes.

Os assuntos que mais se fazem ver nestas salas são repletos de gestos eróticos, gestos andro_eróticos, eles que se incumbem de incluir todo e qualquer um que pensa e vive o corpo masculino em sua veia pulsante de irradiação erótica, sua ardência. E por isso o quer. E de vez em quando o ama.

Todo o resto...são histórias.

Seguem passagens selecionadas que essas novelas descortinam, passagens inconclusos já que o amor, ele mesmo, não promove enredos onde haja um só selo, uma só resposta ou saída.

sean ___ o escritor

___ conhecemo-nos quando fui a gallway trabalhar no mayo institute e ele estava visitando os pais em ballyvaughan. sean era dessa região, último filho de uma família de sete irmãos homens, uma família extremamente católica, com um pai que ia à missa todo s os dias enquanto recolhia as memórias nacionais de pragas na agricultura, fome e imigração forçada, um cenário pelo qual sua família, ou melhor a irlanda inteira atrvessou, em um passado não muito distante

___ ficamos felizes em saber que ambos viviámos em londres, o que iria permitir que nos víssemos com mais freqüência. sean trabalhava para uma editora especializada em passeios pelo interior de toda a grã-bretnha e por isso tinha que sair por períodos largos para detalhar cada uma dessas muitas caminhadas, fotografá-las e conhecer o melhor tudo o que era local, para incorporar esse conteúdo em seus textos

___ ele nunca se conformou que morássemos em duas casas separadas em londres e a sua grande felicidade era quando nós íamos a um seu pequeno cottage em lamberhurst no sudeste de londres, um local pacato e apropriado para essa sua coleta de material para aonde ele podia voltar sem ter de entrar em londres. seu enorme senso religioso, sentido de convívio e a necessidade de estar junto a alguém mais no cotidiano, fazia de sean aquele tipo de sujeito que adorava dividir a pasta de dente e as roupas no armário com seu companheiro

___ quando as ausências tinham de se prolongar escrevia-me sistematicamente cartas amarrotadas desde o se largo sleeping bag, aonde dormia quando as distâncias ou o mal tempo não permitiam uma volta

___ acabei concebendo e lhe dedicando uma imagem do perfil de um homem todo coberto por árvores e ramagens já que ele sean era para mim esse pensador nobre e amante da natureza

___ seja na sua casa de londres que na de lamberhurst, sean fazia questão de frisar que aquelas casas eram também minhas. e qualquer um que as visse não teria como se confundir sobre isso, pois tanto no master bedroom ou espalhado pelas áreas da casa encontraria um bom número de fotos de nós alegres e juntos, ao lado das imagens de seus cenários prediletos. ao contrário de toda essa disposição e afeto, na época minha alma era só feita de vertigens, e ela não conseguia olhar outro senão a si própria, alma feita uma engenharia confusa e egoísta

___ nós nos divertíamos demais estando juntos, ríamos de quase nada, caminhávamos enormemente, líamos e não nos incomodava estar dias inteiros em casa sem sair, se tivéssemos essa oportunidade

___ sean era lindo, de uma beleza adonisíaca, emblemática, um sorriso cativante, um caráter terno e um fazer amor muito, muito doce e carinhoso. ao vento e com os grandes óculos que costumava usar, ele tinha um ar de coruja ou de um pássaro brincalhão

___ talvez... tenha sido por eu ter lhe trazido rosas em continuação nas primeiras semanas que nos conhecemos, já que ele nunca tinha recebido rosas de um outro homem, que fez com que ele se afeiçoasse por mim e acredito que ele tenha me amado de fato... e por isso mesmo... ele não podia acreditar que eu o deixaria mais à frente... aliás quem poderia deixar um homem desses para trás? digam-me... quem? só mesmo um temperamento sombrio como o meu, e um mapa astral corrompido de auto-sabotagem poderia dar margem a isso

___ eu entretanto sabia interiormente que eu agia com uma esperteza que o levava a caminhos que poderiam feri-lo. ele, por sua parte, quando estava em minha casa, comentava que, meio aqueles meus livros e de algumas figuras de pedras que eu colecionava, ele se sentia invadido por uma estranha sensação de irrealidade... um seu presságio...

___ entre eu anunciar que o deixava e o dia que marcamos para que isso acontecesse o que houve foi muita choro e tristeza, lembrando uma oração que eu fazia antes de dormir quando criança que descrevia um local de nome ‘vale de lágrimas’

___ e só muito tempo depois vim a compreender que quando o conheci sean era um sagitariano imaculado: um filho direto de júpiter/zeus cujo maior aspiração de vida é a incessante procura de um espírito que transcende o destino e a morte. naquele ponto de sua vida sean era daqueles sagitarianos que fazem um esforço maníaco para serem felizes e divertidos. eu entretanto foi aquele que primeiro o feriu fortemente, para assim despertar o seu lado quíron, centauro erudito e profeta imagem deste signo, fui eu que o feri com a flecha embebida no sangue de hidra, um veneno mortal com o qual quíron teve de conviver ao lado de sua condição imortal

javier__ o arquiteto

___ conhecemo-nos em chicago aonde ambos vivíamos

____ javier vem de família cubana com avós intelectuais, uma família de arquitetos e poetas, foragidos e perseguidos. javier ele mesmo saiu clandestinamente de cuba com os tios quando tinha sete anos. javier lembra-se dos cafés de havana aonde seus conhecidos conversavam em voz baixa e assustada, inclinados sobre mesas de esplanada. muitos deles sabiam que acabariam por ser presos, senão naquele dia no dia seguinte ou uma semana depois. e por isso mesmo se mostravam delicados e atenciosos uns com os outros; tiravam o chapéu e perguntavam pelas famílias dos companheiros e... ali e sob aquela circunstância... graves desentendimentos literários de muitos anos eram esquecidos

___ sabendo que eu era avesso a situações de muita euforia e barulho, javier terá quiçá se afeiçoado por mim... quando eu lhe propus que aparecesse em casa uma noite daquelas, para animar um pouco a minha solidão. javier é 10 anos mais jovem do que eu e ria-se quando passamos a nos freqüentar, dos modos e maneirismos conservadores e antiquados, segundo ele, que eu tinha em relação a por exemplo o conceber um relacionamento amoroso ou o como ter ou fazer sexo... mas... contrariamente ao convencional, ele gostava imensamente que eu me mostrasse sempre disponível e accessível para fazer amor nos lugares os mais inóspitos, públicos, lugares que tanto o interessavam

___ embora nada religioso javier era muito entendido em presságio e pressentimentos. escondia em um armário de sua casa um santuário na frente do qual sistematicamente se ajoelhava e rezava, insistindo que ninguém o observasse.

___ seu melhor amigo era um italo-canadense, gian piero, que ganhava a vida como um gigolô. Em paralelo a ser um conhecido e assediado escort de homens com posições sociais elevadas [de banqueiros a empresários], homens que o buscavam para as suas marcações amorosas em ‘horário de expediente’ quando podiam escapar às suas famílias, gian piero também ganhava a sua vida como modelo fotográfico.

___ a presença dessa morte de seu amigo e a luta política nos usa da época, fizeram de javier um rigoroso, mas sereno, ativista pela luta por políticas de saúde públicas mais abrangentes, além de, e é claro, pela não discriminação de uma ou qualquer orientação sexual

___ javier cuidou e acompanhou o amigo até ele fechar os olhos, o que foi, para ambos, um bálsamo. enquanto eu, e sob outro ângulo do conhecimento, sabia que gian piero tinha, inscrito em seu mapa astrológico natal, uma boa série de impulsos e tensões psíquicas, marcados pelos aspectos do planeta marte e de plutão, os quais potenciaram a penalização e a violência exterior à que ele foi, seguidamente, exposto.

___ javier incomodava-se da maneira superficial com que eu abordava as situações políticas, como se eu estivesse a falar de religião, com uma melancolia convencional, reclamava ele, como se as situações políticas fossem algo de bastante ‘irreal’ mas... superadas as diferenças continuamos a desfrutar o melhor de nós, entre nós. eu tinha minhas visões pessoais e reservas com o hedonismo nascente no mundo daquela década... um hedonismo que poderia estar encobrindo as lutas que me pareciam as mais vitais para os gays, aquelas mais diretamente ligadas à direitos civis e a transparência da vida de dois homens ou duas mulheres quando juntos e dentro da malha social, sobretudo quando estes sujeitos eram pais e mães e constituíam com seus parceiros do mesmo sexo, um agora nova e ‘estranha família’.

___ javier era um esteta em todos os sentidos, amantes das formas ornamentais e convolutas, e suas maiores paixões arquitetônicas, eram os capitéis de colunas, e arcos góticos que utilizavam queixadas de um cachalote

___ tinha com alguns sócios um escritório de arquitetura, mas javier equilibrava o seu orçamento com o desenho técnico de objetos

___ javier nunca viu como possível que pudéssemos viver em uma mesma casa: para ele as sutilezas do adorno e do cuidar de uma casa era uma obsessão, enquanto que para mim era uma estrada que eu havia deixado para trás. javier é daqueles homens que realmente apostam na vida em uma penthouse, embalada por daikiris, negronis e blood maries

___ javier tinha uma leve inclinação,quase que pueril, a intencionalmente discordar com muito do que eu falava, fazendo de nossa vida em comum não um campo de batalha, mas mais aproximadamente um tabuleiro de monopólio onde estratégias, passos e investimentos podem ou devem ser medidos e calculados

___ deixamo-nos sem nos ofendermos, e usamos até hoje o nosso tempo e a nossa atenção para o que recebemos um do outro nunca feneça, ou perca a sua beleza

jonas ____ o fotógrafo

___ poucos minutos depois que começamos a falar em um praça em nápoles, jonas me tomou pelos braços e me levou ao hotel aonde ele estava hospedado. ali passamos alguns dias e noites, a falar pelos olhos, e a foder com gentileza e afeto

___ jonas era um fotógrafo com especialidade em fotografias aéreas tanto as de naturezas quase inacessíveis quanto as de espaços urbanos e industriais. ele tinha por norma de vida alugar estúdios temporários pelo mundo, pois era um profissional conhecido por aceitar tarefas fotográficas perigosas, difíceis e distantes. dirigia pequenos aeroplanos e conseguia sobrevoar, sem necessidade de alguém mais lhe auxiliar, lugares ermos e desertos: e tinha uma excepcional capacidade de concentração e abstração para produzir imagens.

___ personagem solitário, um estudioso, um viajante e um poliglota, jonas abominava qualquer função que o ligasse a um cotidiano regular ou qualquer atividade que o tirasse de seu anonimato

___ assim, e por isso tudo, propunha e produzia encontros extravagantes e pedia apenas que eu o acompanhasse com o meu silêncio. jonas nos procurava cuidadosamente quartos amplos em cidades esquecidas, e trazia invariavelmente consigo um pequeno aparelho de som. selecionava e colocava músicas românticas de diferentes raízes e... me convidava a dançar. vinham-lhe comumente lágrimas aos olhos quando, nos deixávamos emocionar e levar pela ardência de nossos corpos... e pela música

___ geminiano puro jonas fazia ver e entender o quão difícil era o aprendizado a que ele estava submetido: o contornar suas realidades opostas, seu duplos, uma luta à que ele nunca fugiu. ele é um representante exemplar da figura de hermes, arquétipo deste signo, um hermes sem um só lugar designado, já que único lugar que lhe é possível é a fronteira, as estradas, as passagens e as encruzilhadas, aonde são enterrados os suicidas, os enforcados e os criminosos.

____ impacientava-se com as pessoas que não narravam ou comentavam suas próprias misérias ou grãos de loucura

___ quando em terra jonas amava e estudava o cavalo selvagem e a crisálida

___ gostava de tatuagens extremas e tinha o corpo bastante tatuado e deixara parte dele para futuramente gravar uma poesia que estava preparando pouco a pouco, durante a vida

___ até que, sem um sinal particular, e aproveitando-se do artifício de que eu fosse comprar um pão particular na melhor padaria da vila, enquanto ele preparava mais um de nossos famosos e ardentes cafés na cama, jonas deixou-me. era uma manhã, cedo, e estávamos em um quarto de hotel nos desertos do chile. ao voltar encontrei o quarto tão vazio e gelado quanto a geografia do lado de fora. a única peça que ele abandonou nesse quarto de hotel, foi um seu pesado casaco com alguns objetos sem nexo em seus bolsos. e nenhuma palavra.

____ conformei-me imaginando que eu lhe provocara no coração uma energia estática. e que ele na sua alma de príncipe, teria a necessidade de renovar esse seu pulsar. tratei, outrossim, foi de, ao voltar a casa com esse casaco abandonado, pintar – lhe uma árvore as costas, para enraizar, no coração e na memória, o que se passara entre nós

___ jonas dizia que entre as filosofias que conhecia, nos dias de hoje eram as máximas de philip marlowe, o private investigator de raymond chandler, as que ele considerava as mais adequadas e diretas para uma leitura do ser humano moderno e... tirando um pequeno caderninho de anotações que sempre levava consigo do bolso disparava * não podemos fugir de nós próprios * as armas nunca resolvem nada

___ são apenas uma má cortina para um mau segundo ato * e, entre todas as máximas que anotava, repetia sempre aquela que considerava brilhante quando se olha para a alma de um homem e as posições do masculino de nossa época. a máxima diz: * se eu não fosse duro, não estaria vivo. se eu nunca pudesse ser meigo, não merecia estar vivo


– f.marquespenteado

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