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06/04 – 18/05 2019


Antonio Obá desenvolve o seu corpo de trabalho através de uma estrada que liga o Brasil colonial e o Brasil contemporâneo, mas para além disso, ele caminha nessa estrada a partir do momento que começa a entender o corpo negro e o indivíduo negro na construção da história; isso é entregue no começo da sua relação com a pintura, de maneira em que o barroco brasileiro se revela, e assim, abre uma infinidade de relações no trabalho do artista, que exige um olhar ao passado.

No Brasil colônia, a influência de uma ressaca do exteriorismo medieval não seria tão especificamente português, mas europeu nórdico e impregnado de magismo, que sofreria na Europa o combate do catolicismo contra reformista, mas persistiria por longo tempo nas colônias. Em Minas Gerais, principalmente, e na região nordeste e centro-oeste do país, as práticas religiosas exterioristas como procissões, festas e rituais, encontrariam campo fértil para sua disseminação, aliada à pompa barroca que a riqueza vinda da extração de minérios pôde propiciar. O que se produz naquela época em caráter cultural é o culto opulente dos templos barrocos, a monumentalidade dos altares, expressividade trágica das imagens, a elegância dos detalhes e as surrealidades do gesto. Toda essa construção estética da fé católica no Brasil, deflagra uma relação contraditória com a ética da igreja como força política de manutenção do sistema escravista e, consequentemente, do controle da maior parte do contingente populacional do país, os negros.

Obá explora implicações do corpo negro católico e a partir disso começa a caminhar para um estudo de objetos e monotipias, que em seu caráter alegórico, propõem figuras de corpos que se encontram enterrados, indicando as suas formas primitivas: o fóssil do homem. A partir disso, a exploração da memória apagada se realiza como uma espécie de escavação, logo o artista se afasta da pintura e começa a procurar a origem do homem negro longe da fé católica e de todas as suas implicações estéticas.

O afastamento ao barroco brasileiro nas suas resoluções menos complexas faz com que o artista se lance à um terreno vazio para entender a origem do corpo negro e desse homem para além de seu corpo, mas em encontro à origem desse corpo nas representações artísticas. Esse encontro é tomado por reminiscências de memória, lugar de saberes e identidades; um espaço diaspórico resinificado quando se integra ao continente sul-americano e passa a produzir e legitimar a sua expressão. Estas reminiscências da memória mencionadas, se encontram aos ritos religiosos afro-brasileiros e refletem nos sincretismos e construções de uma identidade.

Esse terreno vazio trouxe o artista de volta à pintura, agora mais diluída no trabalho de Antonio Obá, que não caminha mais a estrada da colonização para os tempos atuais. É uma pintura silenciosa, ela retira das paisagens o som e se esbalda no silencio dos retratos, ela é o individuo isolado que está em vigia, se revelando no reflexo da faca amolada, preparada para não caminhar mas permanecer aonde é o seu lugar, mergulhando-se de referências figurativas legítimas da história do negro, como o homem que come a melancia e os erês que cercam o preto velho.

Obá atravessou as superficialidades das referências e entregou a alma de um artista que agora sabe do seu corpo e o entende como espaço geográfico, político e humano, para além do corpo, memória e história, que uma vez deflagrada não pode ser novamente apagada. O título da mostra sugere uma tomada de posição e essa pressupõe que não se deve fugir, mas estar atento e consciente de si, o que conscientemente lhe levará a compreensão do todo do mundo.

Antônio Obá (Ceilândia, 1983) vive e trabalha em Brasília.
Suas exposições incluem Histórias Afro-Atlânticas, MASP / Tomie Ohtake, São Paulo (2018); Arte Democracia Utopia - quem não luta tá morto, MAR, Rio de janeiro (2018); Pele de Dentro, Mendes Wood DM, Nova York (2018); Pipa Prize 2017, MAM-Rio, Rio de Janeiro (2017); entre, Casa da américa Latina, Brasília (2016); My body is a cage, Galeria Luciana Caravello, Rio de Janeiro (2016); ONDEANDAAONDA, Museu Nacional da República, Brasília (2015); OCUPAÇÃO, Elefante Centro Cultural, Brasília (2014); Impermanências, Galeria de Arte Dulcina de Moraes, Brasília (2008); Sob o signo de um novo olhar, Centro cultural do SESI, Brasília (2003).

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