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Being blonde with insufficient funds (transpirations of a virgin)

11/29 2014 – 01/30 2015


O homem nasce com pés, mas ele mesmo precisa fazer suas asas crescerem. Quanto mais longas e mais fortes as asas se tornam, menos os pés deixam vestígios na terra.
O mesmo se aplica aos artistas – quanto mais alto eles voam com a ajuda das asas que eles fizeram crescer, menos significantes deixam na terra, e mais cicatrizes aparecem no céu, por causa de suas asas. Tenho certeza que os artistas que firmemente seguem estes passos, no final, simplesmente desaparecem do horizonte humano – portanto, apenas o céu se torna o receptáculo das cicatrizes de suas asas pontiagudas.

Florian Meisenberg também começou com marcas deixadas na terra. Ele deixou traços exuberantes, alegres e mágicos sobre as superfícies de suas pinturas: pássaros envoltos em luz e cores paradisíacas que se transformaram em pedras preciosas de um majestoso colar; insetos coloridos – membros de uma família grande e feliz, agarrados uns aos outros, e que abrangem o grande espaço da enorme tela de Florian como uma teia de aranha glamourosa; também os seres humanos transvestidos de insetos, copulando em quartos insignificantemente mobiliados e decorados; discípulos de Jesus Cristo, que, durante a última ceia, ficaram perdidos por trás de uma mesa enorme e que foram transformados em minúsculas feridas, dolorosamente coloridas deste enorme objeto metafórico; um fascinante tapete ornamental da mesma cor rosa dos corpos dos leitõezinhos chineses que o compõe. E muitas outras imagens extravagantes, florescentes, mundanas e celestiais, todas charmosamente carismáticas.

Nessa fase pés Florian estava explodindo o mundo, e o mundo o estava retribuindo na mesma moeda.

Mas qual é o principal talento dado ao filho de Deus? O de superar essa atração simplória para fenômenos mundanos(!) o que faz dele um escravo do mundo, e transforma o mundo em uma selva sem limites de aventuras exóticas na qual se pode ficar perdido e esquecido. Sim, o filho de Deus tem a força para superar este festival de gala, e para desenhar com tinta preta sobre a toalha da mesa desta celebração grandiosa apenas um sinal – um único, enorme ponto de interrogação que se estende por todo o mundo! E aqui, a partir deste momento, dentro deste ponto de interrogação, asas começam a crescer rapidamente; e é por isso que essas aves, suínos, figuras copulando, discípulos e Deus sabe mais o quê – brilhantes, piscantes, hipnotizantes, característicos das superfícies de fenômenos – lentamente se transformam em sinais silenciosos, símbolos, metáforas. Então, aqui as animadas piruetas da existência param para ser aprisionadas... para dentro de profundo silêncio, e aqui começam os primeiros vôos de elevação de artistas pelo ar.

Neste espaço, aqui e ali pode-se notar sinais suspensos, criações de artistas – mas eles não são para a regulamentação do tráfego da vida. Estes são os projetos para a realidade perfeita sugerida por Platão como a causa inicial da existência de tudo [Eidos]. Estes sinais são as cicatrizes que resultam da ação poderosa das asas pontiagudas que artistas conseguiram desenvolver.

Mas as cicatrizes e sinais específicos de Florian, deixados no ar, dançam uns com os outros. A dança é a visão inicial de Florian, detectada por ele através de seu exame profundamente subjetivo do sentido mais profundo das coisas e acontecimentos que nos rodeiam. Seu vôo pessoal chega ao ar rarefeito de um espaço cheio de sol; as cores quentes e convidativas de suas telas cruas criam a qualidade dentro da qual estes sinais que dançam são colocados. Através deles ele nos fala de um cataclisma feliz, onde esses sinais são realmente os restos de um outrora dramático castelo metafísico, agora em ruínas, não mais servindo a ordem simbólica e sua hierarquia. Eles se tornaram brinquedos, flutuando livremente e interagindo uns com os outros de uma maneira nova, livre de qualquer profundidade e altura.

Em sua essência, o cosmos destes significantes cheios de fôlego constroem um novo espetáculo, sem começo nem fim, sem dialética e sem nenhuma orientação de meta | razão.

O futuro deste cosmos se refere apenas ao processo poético sem fim, e abre explorações mais alegres do êxtase do absurdo. Mas este absurdo, muito afastado da história humana, não tem qualquer amargura (contrastando com a associação humana usual da perda do sentido de algo). Ela expõe apenas a luz da gloriosa irresponsabilidade! Sem nunca ter tido esta condição em seu poder aqui na terra, o homem a vem simulando ao longo da história, com a ajuda de diferentes meios: riqueza, conhecimento, crenças. Todo ser humano sempre esteve e está se esforçando para alcançar esta condição divina, mesmo inconscientemente – é a sua principal obsessão! Há muito, muito tempo eles até inventaram um nome para esta condição, o apelido pesado e desajeitado Verdade [Logos], que, no final, tornou-se um fardo que se transformou em sua prisão mais eficiente; uma que durou até que este nome Verdade fosse completa e inteiramente desacreditado. Mas, desde o fim do nome falso, Verdade, a dança de sinais no ar dourado tem continuamente descoberto e clamado pelo nome verdadeiro, Gloriosa Irresponsabilidade.


– Gia Edzgveradze 

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