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Warmilk

31/05 2014 – 26/06 2014


A Mendes Wood DM tem o prazer de anunciar Warmilk, a primeira exposição individual do artista norte-americano Blake Rayne no Brasil. Nascido em 1969, em Delaware, EUA, Blake Rayne é hoje reconhecido como um dos principais artistas da sua geração. O historiador da arte David Joselit definiu a geração de Blake Rayne como aquela que cria uma pintura que é apenas um ponto dentro de uma teia de associações e visualizações que existem fora do objeto em si – e que sem elas – as associações e visualizações – o trabalho não se aplica como arte. Consciente dos movimentos da arte contemporânea do século 20 como a arte conceitual, minimalismo, landart e as vanguardas do início do século, Blake Rayne constrói a visualidade das obras por meio de uma rede referências desses movimentos e uma gama enorme de objetos e processos possíveis.

Já no título da exposição, Warmilk, o artista se utiliza do trocadilho em que a palavra pode ser dividida como war (guerra) e milk (leite) fazendo uma referência ao estado de crise da economia política para a alimentação da sociedade, ou pode também ser lida como warm (quente) e ilk (família, classe, conjunto da mesma espécie ou tecido), o núcleo da sociedade que seria a família, o lugar quente e aconchegante que todos buscam ou o tecido que une as partes e também nos remete a idéia de tela ou território. O trocadilho é um experimento associado a Marcel Duchamp, artista que de certa forma permeia esta exposição, e que se utilizou de várias formas do trocadilho em sua obra.

Nos trabalhos sobre papel vemos uma coleção de pinturas construídas sobre um desenho. Os desenhos são criados a partir de um stencil retangular. O artista começa o desenho de um ponto e só termina quando o lápis volta ao mesmo ponto, assim se eximindo da questão de quando um desenho ou um obra está pronta – questão artística clássica da modernidade para a definição do autor. Os diversos retângulos que vão surgindo sucessivamente, criam enquadramentos que remetem por um lado a Muybridge (o fotógrafo do século 19 que estudou o movimento por sucessivas fotos de um mesmo movimento) e por outro lado a estrutura da famosa tela O nú descendo a escada 1912, de Marcel Duchamp. Estamos no limite entre o absoluto auto-controle das referências e do compartimento de um estêncil, ao mesmo tempo que a mão parece livre para caminhar qualquer caminho possível. Sobre essa estrutura básica, Blake Rayne realiza sua pintura e termina com um gesto de duplo significado. Ele retirou uma das lâmpadas fluorescentes da galeria e triturou o vidro fazendo assim um pó brilhante. Lançando esse pó sobre os desenhos, o gesto remete primeiro ao The Bride Stripped Bare by Her Bachelors, Even, 1915–1923 ou o Large Glass (Duchamp) como foi apelidado, tanto pelo formato retangular dos desenhos a lápis sugerindo movimento, mastambém pelo vidro quebrado. Em segundo lugar, o gesto também lembra o 3 stoppages étalon, 1913, (Duchamp) um experimento para aprisionar e obter formas por meio do acaso. O carimbo fixado no lado esquerdo da pintura com os dizeres When the alligator bites your leg you punch him in the nose with you hand (Quando o jacaré morde a sua perna você dá um soco no nariz dele), é uma insinuação Pop bem humorada aos manuais de auto-ajuda que sugerem soluções simples para problemas complicados e fazem dessas pinturas algo semelhante ao pôster.

Outro trabalho na exposição é o vídeo Sem título, em que se vê o artista com um iphone filmando a tela do computador. A tela está dividida. De um lado se vê Diário de um padre, e na outra metade Pickpocket, ambos filmes de Robert Bresson de 1951 e 1959 respectivamente. Nessa performance o artista luta para passar o maior tem popossível com o seu celular levantado filmando o que se passa diante dele. Aqui a linha que separa os dois filmes na tela é a marca divisória entre o idealismo no caso de Diário de um padre e o materialismo no caso de Pickpocket. Éuma linha que separa dois lados de uma mesma moeda que está em constante crise no mundo contemporâneo, o idealismo e o materialismo, mas que forçosamente tem que conviver.

A presença da linha na exposição indica territórios, algo que na sua estrutura mais ampla remete a divisão política do planeta em nações. O sentimento de nacionalidade é também o sentimento do exílio, aquele sentimento da busca pelo seu próprio espaço. As referências ao cinema, a fotografia, aos pôsters e ao vídeo, trazem a esta exposição a consciência de que hoje nos definimos por aquilo que nos circunda e que está em constante alteração: a imagem. Mas nós mesmos nos definimos por meio daquilo que conseguimos registrar nas telas de celulares e câmaras, gerando mais e novas configurações de territórios. Nessa multiplicação de fronteiras talvez seja a indicação de quecomo exilados político, sejamos hoje exilados econômico, social ou em última análise talvez exilados de nósmesmos. Acho que aí reside a poética e a crise de Blake Rayne. Bom show! 

Blake Rayne, nasceu em Lewes, em 1969, vive e trabalha em New York. Formado pelo California Institute of the Arts, recebeu uma bolsa da American Academy em Berlim (2010), e lecionou na Escola de Artes Visuais da Columbia University. Exposições individuais incluem: Blake Rayne (1301PE, 2013), Wild Country (Campoli Presti, London, 2012), Blake Rayne (Formalist Sidewalk Poetery Club, Miami Beach, 2011), Shade Subscription (Capitain Petzel Gallery, Berlin, 2011), Coastal Graphics (Sutton Lane, Paris, 2011), e Folder and Application (Miguel Abreu Gallery, New York, 2010). Ele também tem sido destaque em exposições coletivas como PLIAGE/FOLD (Gagosian Gallery, London, 2014), Chat Jet: Painting the Medium (Künstlerhaus, Graz, 2013), I Think and That Is All That I Am (Thomas Duncan Gallery, Los Angeles, 2012), System Analysis (Langen Foundation, Neuss, 2011) e New York to London and Back: The Medium of Contingency (Thomas Dane Gallery, London, 2011), bem como Bergen Kunsthall, The Kitchen, Sculpture Center, Artists Space, Green Naftali, e American Fine Arts. 


– Ricardo Sardenberg

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