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Che Cherera

31/08 2014 – 25/10 2014


Na mostra Che Cherera, (do Kaiowa meu nome) Paulo apresenta parte de Cadernos de África [1], um conjunto de apreensões da África de lá aqui, da África daqui lá, e de nossa África com seus outros desdobramentos. Diferente do sentido literal que podemos pensar, os cadernos em Cadernos de África são, não uma publicação, mas um conjunto de possibilidades: trabalhos anunciados que podem ou não se materializar (num dado tempo e espaço), fotografias, vídeos, relatos, e outras possíveis manifestações. 

O projeto começa com uma peregrinação contemplativa no espaço doméstico do próprio artista – a cozinha, a casa, o quintal, a comunidade onde vive com a família e vizinhos (Palmital), e se estende à outras terras. Através de suas migrações e deslocamentos, Paulo desenha um mapa dos traços dos povos africanos e indígenas em nossa história passada e presente, recuperando memórias esquecidas, apagadas e ignoradas, num território que vai de Palmital à Santa Luzia (MG), de Santa Luzia às Minas Gerais, das Minas Gerais ao Brasil, do Brasil às Américas e ao mundo. Até o momento o artista peregrinou pelo Benin, Nigéria, Moçambique, Kênia, Tanzânia, África do Sul, Argentina, Uruguai, Paraguai; e no Brasil, São Paulo, Bahia, Goiás, Tocantins, Piauí, Pará, Amazonas, Maranhão, Ceará, Pernambuco, Alagoas, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. No blog que documenta o projeto, uma imagem do artista com amigos e vizinhos da comunidade, num dia de “bater laje” – mutirão para construção das casas uns dos outros, e um texto anuncia intenções e parâmetros: SABER O QUE TEM DE AFRICA EM MINHA CASA [KNOW WHAT THERE IS FROM ÁFRICA IN MY HOME] PALMITAL, setor 7, Santa Luzia/MG – BRASIL – CONHECER AFRICA ANTES DE CHEGAR A EUROPA – SABER QUE HA DE MINHA CASA EM EUROPA – SABER O QUE TEM DE AFRICA EM EUROPA…

Além de fotografias, fazem parte da mostra três vídeos da série Malvenido (2010) [Malvindo]: Estrangeiro Nacional (2012), Paseo en el barrio rico de Buenos Aires (2010/2011) e Malvenido (2012), vídeo homônimo da série. Os três trabalhos lidam com questões de percepção e pertencimento: o lugar atribuído, em contextos específicos, a certos sujeitos sociais: o negro, o mulato, o pobre, os quase brancos pobres como pretos, e os quase brancos pretos de tão pobres [2] Em Estrangeiro Nacional (2012), um trabalho de 13 minutos de duração, Nazareth registra sua experiência de chegada e recepção num hotel em Belém do Pará. Impedido pelo segurança do hotel de entrar no estabelecimento, o artista tenta negociar a percepção equivocada e reconstruir a imagem percebida. 

A escolha por registros feitos em preto e branco, por imagens que são hora oscilantes, desfocadas e imprecisas borram qualquer tentativa de definição e enquadramento das identidades raciais e sociais, nosso equívoco coletivo. Como é comum no conjunto da obra do artista, o conceito de identidade está em constante processo de construção e negociação. 

Ao contrário do que possa pensar o observador desavisado, ingênuo e com sede de exotismo, o trabalho de Paulo Nazareth é densamente político. Isenta de elementos aleatórios ou gratuitos, a obra desarticula nossas referências e questiona, sem propor soluções definitivas, a posição fixa de certos estereótipos na contemporaneidade: o que é ser negro, africano ou indígena? Qual é a posição política e econômica que esses sujeitos ocupam dentro das estruturas de poder? Quem define essas posições? Suas migrações, tanto as literais como as sugeridas, revisam os processos históricos, apontando para os seus desdobramentos. Acima de tudo, elas trazem à luz as faces, os gestos e os modos de ser, viver e operar desses outros sujeitos, revelando seu protagonismo, complexidade e riqueza.

Che Cherera é um outro passo no processo de observar o mundo pelo desenho dos olhos [3], é mais um fragmento desse amplo trabalho memorial.

Fabiana Lopes é curadora independente que vive entre Nova Iorque e São Paulo e tem textos publicados na Colors magazine e Flash Art. Com mais de vinte anos de experiência professional, ela recentemente ocupou as posições de Assistente de Curadoria na Colección Patricia Phelps de Cisneros e no útimo ano contribuiu com exposições e projetos curatoriais no Museum of Modern Art, New York, Hauser & Wirth, New York, e Sotheby’s Institute of Art-New York.

[1] Cadernos de África é um projeto que começou em 2012 e está em andamento.
[2] Trecho da música Haiti, de Caetano Veloso.
[3] Trecho de panfleto de Cadernos de África, P. NAZARETH EDIC./LTDA, cadernos de africa – belo horizonte – sao paulo – rio de janeiro – BRAZIL – JAN. 2–13 –



– Fabiana Lopes

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