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Deserto-Modelo

05/04 2014 – 03/05 2014


Dois dias iguais, e diferentes

Sou pouco afeiçoado à natureza, que em mim se reduz quase que
a uma paisagem moral, íntima, em dois ou três tons, só que 
latejante em todas as partículas.


– Carlos Drummond de Andrade em Divagação sobre as Ilhas

Os trabalhos de Lucas Arruda, são sobre memória antes de serem pinturas sobre paisagens. São lembranças construídas dentro do atelier e não ao ar livre. Configuram-se mais como momentos do artista e menos da natureza: um segundo conteúdo derivado do primeiro. Existe a vontade de se afirmar como homem, como sujeito, (Sim, eu estive ali, e eu me lembro do que senti). Ele faz isso recriando a luz e as cores que desencadearam a alegria, a melancolia, a tristeza, a plenitude de ter estado ali naquele momento.

Parece ser no atelier que ele encontra ou tenta encontrar ordem no mundo. Recria todas aquelas sensações por meio do exercício daquilo que mais gosta, da pintura. E por isso é normal que as vezes o seu ponto de partida seja a pintura de outros artistas. Uma árvore de Corot, o mar de Turner, ou uma praia de Reverón. Nós também olhamos para o mundo pelos olhos dos artistas que gostamos.

Acredito que talvez ele encontre a transcendência pela repetição. De uma pintura a outra. A pintura anterior reverbera, ecoa, e mostra o caminho para a próxima. A cor, os tons que estavam naquele trabalho de quatro meses atrás, reaparecem neste terminado ontem.

A Rotina tem seu encanto. Fico imaginando que talvez este título do último filme de Ysujirô Ozu, de 1962, serviria muito bem para descrever os trabalhos de Lucas. Mas a grande maioria de suas pinturas não têm título. Os títulos que servem para diferenciarmos ou descrevermos um trabalho, ali não fariam sentido. Ou você imaginaria que uma destas pinturas pudesse se chamar Fim de tarde na barra do Una? Se assim fosse desapareceria toda a ambiguidade, toda a tentativa de reconstrução pela memória.

A falta de título desses trabalhos também nós levam a pensar que já vimos aquelas pinturas antes. Porém basta um tempo olhando-as para se revelarem diferentes. Eu não me lembro exatamente da maioria dos meus dias. Mas isso se justifica, minha memória não é das melhores. E os dias não são iguais, são diferentes, são únicos. Assim como as pinturas de Lucas.


– Rodrigo Bivar 

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