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Conversão

31/10 2012 – 24/11 2012


De acordo com Moacir dos Anjos, em período curto de tempo e por meio de projetos diversos, Matheus Rocha Pitta sedimentou interesses e estratégias que permitem identificar, em uma obra que se adensa a cada novo trabalho, enunciado crítico sobre os mecanismos de troca que regem a vida comum. Move o artista, em particular, a vontade de explorar e expor a mercadoria – coisa qualquer que o trabalho humano produz e pela qual existe inequívoco desejo de posse – como índice de paradoxos que tais intercâmbios encerram ou engendram. É em torno dessa agenda que se move a exposição Conversão.

A primeira obra, a escultura 00%, toma a vitrine da galeria como uma divisão de território. A faixa de terra do jardim imediatamente próxima à parede de vidro foi retirada e distribuída em sacos plásticos de supermercado, que por sua vez tiveram suas alças recortadas e encadeadas em uma longa corrente que faz as vezes de um cordão de isolamento para a vala no jardim, resultante do deslocamento da terra.

Em Figuras de Conversão, o artista desloca o foco dos objetos enquanto mercadoria para a mobilidade de seu locus físico e simbólico. Na série, conjuntos de fotos na parede e objetos dispostos no piso se associam para configurar narrativas de trocas de posições e de significados, subvertendo a ordem com que se espera que as coisas do mundo sejam visualmente apresentadas. Em cada reunião de três imagens, uma descreve uma pessoa carregando sacolas plásticas cheias com mercadorias que se compram e se consomem no cotidiano (alimentos, itens de higiene, entre outros produtos necessários à reprodução da vida) e uma outra, de tamanho idêntico, fixa o momento em que as sacolas são depositadas no chão, situação em que o consumidor se aparta daquilo que vai consumir ainda. Na terceira e maior fotografia de cada um dos grupos, as sacolas que estavam antes cheias de coisas estão agora vazias, ligadas entre si por meio de fita adesiva e formando, assim, enorme recipiente. Em seu interior, a pessoa que carregava as sacolas está agora de ponta-cabeça e despida.

A relação das imagens na parede com os objetos postos no chão à sua frente somente acentua o intento do artista em “desentranhar”, do exame de um circuito inventado por ele, conhecimento sobre a natureza das trocas que tem por fim a geração e distribuição de riquezas. Dispostas sobre o piso, cada peça de roupa que as pessoas usavam nas fotografias é preenchida, nos lugares que eram dos corpos, pelas mercadorias que, nas primeiras imagens de cada conjunto, se encontravam no interior das sacolas que eles carregavam. Ao estender as narrativas fotografadas para os objetos que lhes serviram de modelo, Matheus Rocha Pitta converte imagem em coisa e faz gente a partir de produtos, exibindo, sem em momento algum querer explicá-la, a ideia de indiferenciação entre diferentes que é central ao estabelecimento de um valor geral de troca entre mercadorias. Como escreveu a crítica norte americana Irene Small, talvez seja melhor antes habitar do que resistir à vertigem de convertibilidade da mercadoria, para romper sua unicidade por dentro.

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