Vistas da exposição
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Texto

Fresta

04/02 2012 – 25/02 2012


Num primeiro momento, parece haver poucos lugares menos inspiradores para se escrever sobre as telas dePatrícia Leite que um vilarejo no subúrbio de Colônia, Alemanha, com a temperatura patinando em torno de zero grau e os olhos voltados para uma paisagem de árvores secas, casas e prédios ordenados em uma sequência repetitiva, entre tons de branco, cinza, bege e verde-escuro. O céu, encoberto por uma grossa camada de nuvens, não instiga memória alguma das distantes praias ensolaradas, demarcadas pelo encontro entre a areia, o mar e o azul sólido do firmamento, a não ser por uma lembrança melancólica, por uma saudade quase física do calor e da expansão do espaço amplo; o olhar que tenta ir até onde a vista alcança, num dia de praia deserta e luminosa. 

No entanto, de dentro do estúdio da artista, em Belo Horizonte, em uma espécie de subsolo, abaixo da piscina da casa e aberto como uma varanda, o que se vê é a projeção de uma vista abrangente e feia da propagação urbana da cidade sobre a paisagem, hoje inteiramente descaracterizada por anos de especulação imobiliária gananciosa, tão típica dos centros de médio e grande porte brasileiros. Do interior deste pequeno estúdio, nos deparamos com uma das questões fundamentais das telas da Patrícia: não representariam elas uma espécie de arqueologia do olhar?; de paisagens passadas hoje submersas pelo peso da ocupação de todos os espaços? Essa não seria, porém, uma interpretação local e pessoal do trabalho da artista?; e não poderia ser, quando nos encontramos em lugar estranho – na cinzenta periferia de Colônia no inverno, por exemplo –, inversamente pensada como a melancolia do deslocamento e a consequente perda de um panorama querido? Será que as telas de Patrícia evocam as férias almejadas por qualquer pequeno burguês? Uma praia deserta, um circo ou um campo de futebol do interior, uma viagem por um rio ou apenas a disponibilidade de tempo para a contemplação?

Nesta ambiguidade, entre uma imagética extremamente pessoal, em que a escolha de um “tema” parte da própria vivência da artista – uma viagem de férias ou uma cena de um filme recém-assistido –, e outra composta de imagens ideais, idílicas e cobiçadas por todo tipo de gente, reside e se desenvolve uma estrutura de simplificação das formas, das linhas e das cores, o que dá unidade ao trabalho. O ponto de partida não é tanto a origem da imagem em si, mas, antes, a pergunta: dada esta fonte, esta foto que encontrei quando retornei das férias, por exemplo, como posso enxugar seus elementos de modo a lhes dar uma unidade dentro do plano da tela? Que tipo de soluções serão necessárias para abstrair esta imagem, torná-la enxuta e, ainda assim, projetá-la não apenas como paisagem reconhecível mas, também, como pintura da qual emanam novas relações, novos contatos, novas percepções entre duas cores e, portanto, entre elas e a linha que decorre deste encontro. Ao olhar a tela – talvez a melhor expressão seja chassi, já que as pinturas são sobre madeira – nos vemos obrigados a ir além do simples reconhecimento de uma figuração ou “tema” para nos concentrarmos nas cores, que compõem uma linha ou a massa de uma forma.

Este arcabouço de simplificação formal – que estrutura ou embasa a paisagem que remete a desejos e memórias da artista – também implica uma relação de afeto da pintora com a tradição pictórica passada, que igualmente utilizou-se desta base. Aqui, dá-se um diálogo direto – internalizado no trabalho, entretanto – com pintores que flertaram com o legado europeu e que partiram de um ponto de vista da arte popular, como Volpi e suas bandeiras, ou como Lorenzato e seus caminhos de terra e suas árvores, para citar apenas brasileiros. Pintores que instigaram um olhar não somente sobre a figuração ou um “tema”, mas sobre suas soluções formais, principalmente quando pequenas, modestas e pessoais. São soluções compromissadas com a pintura e, secundariamente, com aquilo que representam na realidade.

Neste sentido, são formas de cores sobre madeira que talvez encontrem identidade na trajetória de um pintor como Ellsworth Kelly, que se manteve à parte do minimalismo, ainda que buscasse a simplicidade, absolvendo apaixonadamente a abstração por meio de cores sólidas e linhas.

A mesma relação afetiva que a artista cultiva com as diferentes escolhas de “temas” se estabelece no jogo da construção das estruturas formais, pois a conversa não é com a solução em si, mas com o que nela há de pessoal e intransferível. Como trazer luminosidade em uma linha? Como fazer brilhar um ponto numa tela escura? Estas questões são levantadas e postas em diálogo com pintores de outras gerações, que de certa forma só podem existir no silêncio do olhar e no trabalho duro e diário no estúdio. 

Neste contexto, a obra de Patrícia Leite, já com mais de vinte anos de carreira, pode transitar entre o abstrato e o figurativo, sem hierarquias, por meio de um hedonismo que busca paraísos passados e perdidos, ao mesmo tempo reiterando o prazer, presente, pelo ato de pintar com tintas e pincéis: cores, linhas, formas, composição, tela, imagem.
 

– Ricardo Sardenberg, Colônia, Alemanha
26 de janeiro 2012

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