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You Don't Own Me

09/08 2014 – 27/08 2014


Como um monumento de papel crepom e prata

Explorando as calçadas da Avenida Paulista, em São Paulo, Jack Pierson deu vida à sua primeira exposição individual no Brasil, intitulada You Don’t Own Me (Você Não Me Possui), uma referência à canção de Lesley Gore, de 1963. Ele perguntou a vendedores de rua se podia comprar suas barracas, seus sistemas de subsistência – desde a lona no chão até as cadeiras onde se sentam, os carrinhos de rolimã e as bijuterias artesanais à venda. Recriando meticulosamente esses displays no espaço da galeria – emoldurando os objetos na parede ou exatamente como estariam dispostos nas ruas –, confundindo os limites entre a arte e o comércio. 

Embora este seja um novo projeto para Pierson, não é a primeira vez que ele trabalha com uma variedade de materiais ligados a dicotomias da memória e ao potencial não aproveitado. Em sua prática, o artista utiliza objetos descartados em uma variedade de mídias, como fotografia, escultura, desenhos, colagens, vídeos e livros de artista. A reaplicação dos objetos do cotidiano claramente remonta a um modelo Duchampiano, mas Pierson vai muito além do objeto isolado em um contexto funcional. As re-produções das barracas da Avenida Paulista dão novo contexto ao imediatismo do palpável e afirmam a ambiguidade emotiva que permanece. As reconstruções, juntamente com três novas esculturas, enfatizam o paradoxo da nostalgia inerente aos materiais e revelam o regozijo de um novo propósito.

Um dos aspectos icônicos da prática de Pierson é colecionar letras descartadas por negócios que já fecharam, como marquises de cinemas, cassinos, fachadas de lojas, placas de estradas e outras efemeridades culturais. Nesta exposição, o elemento reciclável das esculturas reforça o papel dos materiais. A obra homônima You Don’t Own Me despudoradamente confronta a questão da autoria e da originalidade.

A combinação das palavras em An Endless Supply (Estoque Infinito) aborda as questões da oferta e da demanda e dos laços criados entre consumidores e objetos. Outra escultura utiliza a letra O, que, segundo o artista, costuma ser a mais rejeitada do alfabeto. A abundância de O’s resulta aqui em estruturas criativas que formalmente brincam com o contorno da letra, que, por sua vez, reflete o formato das bijuterias. O O também remonta aos elementos universalmente místicos e sagrados associados à forma círcular.

A ligação de Pierson com o papel do vendedor de rua começou na juventude. Ainda adolescente, em Plymouth, Massachusetts, ele frequentava brechós e antiquários, comprando, fazendo e vendendo suas próprias bijuterias. Após se mudar para Manhattan, nos anos 1980, Pierson manteve o hábito de visitar os mercados de pulga locais, passando todas as noites pela Astor Place, no Lower East Side, onde os camelôs exibiam sua mercadoria efêmera. Pierson passou a se interessar pela origem desses objetos e pela personalidade de seus antigos donos. Para o artista, esses itens passaram a ser não só peças de comércio, mas objetos que tinham passado, presente e futuro. 

Neste novo conjunto de obras expostas na galeria, Pierson não só dá uma nova vida aos objetos, mas também investiga os limites da arte e do comércio. Cada uma dessas peças deixa de ser apenas um produto, uma vítima do hoje aqui, amanhã ali; toma a forma permanente de uma natureza morta. Além disso, o caráter reconstrutivo dos displays desafia a noção intrínseca do domínio do expôr presente no âmbito da galeria, do museu ou da instituição de arte. O display desses trabalhos não é ditado nem pelo artista, nem pela instituição, mas sim pelos próprios comerciantes. Seja qual for o preço que Pierson pagou por cada barraca, seu valor comercial será redefinido pelos padrões do mundo da arte.

Otimista inveterado 

Conheci Jack Pierson no início dos anos 1990, em Nova York, onde moro. Não me lembro bem das circunstâncias sob as quais nos conhecemos, mas me recordo claramente do efeito que seu trabalho teve em mim quando o vi na galeria do nosso amigo Tom Cugliani, no Soho. Um senso de caos havia se materializado do dia para a noite em downtown Manhattan: a vida após a AIDS trazia muitas perguntas que não tinham respostas fáceis. Um grupo de artistas tomou a linha de frente da luta contra a epidemia, e Jack foi um deles. Na galeria Cugliani, um dos trabalhos dos quais nunca vou me esquecer era formado por letras descartadas que Jack havia recuperado das lojas que fechavam na Times Square. As palavras eram Hopeless e Helpless (Sem Esperança e Frágil), dispostas em formato de X, cruzando-se na letra P, talvez uma inserção da identidade do artista. O trabalho refletia o estado emocional da nossa geração de maneira simples e verdadeira. Transmitia melancolia, ausência e vulnerabilidade. 

Agradecimentos: Kelsey Richards e Izhar Patkin 

Jack Pierson nasceu 1960, Plymouth, Massachusetts, EUA e estudou na Massachusetts College of Art em Boston em 1984. Vive e trabalha em Nova York. Suas exposições recentes incluem individuais no CAC Malaga; no Irish Museum of Modern Art, Dublin; na galeria Christian Stein, Milão; no Regen Projects, Los Angeles e na galeria Cheim & Read, Nova York. Seus trabalhos integram coleções permanentes do Metropolitan Museum of Art, do Whitney Museum of American Art, do Solomon R. Guggenheim Museum, do Museum of Contemporary Art, Los Angeles e do San Francisco Museum of Modern Art, além de outros museus internacionais. Jack Pierson é representado pela Cheim & Read, Nova York.


– Nessia Leonzini Pope

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