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07/04 – 17/05 2018


ONE TRACK

Introduction


Em 1981, o artista afro-americano David Hammons realizou dois diferentes trabalhos com a famosa escultura monumental de chapas de aço corten verticais, T.W.U, de Richard Serra, de 1980. O primeiro foi um acontecimento: junto ao amigo Dawoud Bey, Hammons é fotografado por ele em uma série que ilustra o ocorrido, primeiro o artista posa em frente à escultura já pixada e com lambes colados, depois se afasta da câmera e se vira, urinando na escultura, em seguida é registrado entregando um documento a um oficial da polícia. Este trabalho obteve o título Pissed Off. No mesmo ano, em um segundo momento, Hammons realiza uma intervenção na mesma escultura, colocando no topo dela 25 pares de tênis amarrados pelos cadarços, que foram jogados, um a um, do chão para o alto, acima de 10 metros de altura. Este trabalho foi nomeado Shoe Tree.

Medley (Parte I)

“Pra falar a verdade pra você mano, aqui ninguém é milionário não. Mas sabe do que é que a gente é milionário? Nóis é milionário de felicidade, meu parceiro. Porque a felicidade sim é a ostentação”, introduz o Mc Ruzika ao apresentar sua nova composição, em um vídeo postado em 2014 em suas redes sociais na internet.  

Enquanto Ruzika prepara conscientemente seus fãs para o que seu novo Funk os reserva, sua face se mantém totalmente séria. Mas ao escorrer da boca do Mc a palavra “felicidade”, ele abre um leve sorriso. Quando o discurso introdutório acaba, seus olhos pulando, indo e voltando de onde se encontra a letra da música ao olho da câmera, em que se acha seu público, surgem sorrisos curtos de canto de boca em sua face, flagrando cada Punchline de suas rimas.

Bonde dos Milionários inicia assim: “Ma-lo-quei-ro nato/ problemático/ re-vo-lu-cio-ná-rio/ e poético/ No mundo onde as notas de cem/ valem mais que a própria personalidade/ Eles compra o que nóis tem/ mas não compra a nossa originalidade”.

Imagine que escrever sobre um artista saído de movimentos legítimos que almejam a superação, o progresso e a prosperidade poderia ser o mesmo que escutar a música de Ruzika enquanto, literalmente ao mesmo tempo, compra no mercado secundário pedras meteoríticas vindas da lua para usá-las em uma exposição de arte contemporânea em uma cratera de impacto em Parelheiros. Talvez algo parecido tenha ocorrido com o artista Daniel de Paula ao se deparar com o novo álbum do Produtor e rapper Kanye West, enquanto definia a compra da passagem da diretora de astronomia do Museu Nacional à São Paulo, a fim de, com ela, palestrar. Contextos muito diferentes que, sem muitas cerimônias, se embrenham num sujeito representado neste ensaio, e que definitivamente une contextos antes incomunicáveis.

A felicidade provinda pelo encontro entre aqueles que vieram dos mais diversos contextos não é um estado nem uma mera experiência, mas talvez para o que se encontra, para dele Produzir felicidade. Como se, Produzir uma Mixagem de representações não fosse a felicidade, mas que o encontro dela com o mundo nos fizessem felizes. Cada representação apresentada por PJota em Medley, entre as molduras pintadas e os planos de fundo construídos ou apropriados não são simples reajustes de beleza na imagem, mas sérios Traps ou Boom Baps que celebram o estar junto. Um filósofo, um romano, um congolês, um adesivo de banca de jornal e um tribal se abrigam num estilo Vaporwave dos fundos metálicos de suas pinturas-instalações. É que a felicidade aí não se pode retirar dos sujeitos representados, mas desse “entre” invisível que constrói sua composição, como num Hit do Funk de 2017 que usa uma flauta de 1723 e celebra com isso a simplicidade e elegância desse encontro.

O sorriso gerado por meio de uma Punchline está na beleza do encontro entre o conhecimento do que se fala, a sabedoria em como escolhe as palavras e no entendimento que se espera do outro sobre o que está a dizer. A forma aí é a condição, o estado dos sujeitos e das coisas no mesmo tempo e espaço. No refrão de Bum Bum Tam Tam encaixado com as notas de Bach, Produzido e Mixado pelo compositor Mc Fioti, a Punchline se reconhece do mesmo modo como quem escuta uma imagem de PJota em Medley. Pois este que sorri ao compreender que o que tem alí dos anos 1990 rima junto ao barroco, que o greco-romano conversa eruditamente com o Rap e que o Pop trava um jogo de xadrez com o africano, reconhece feliz o encontro.

Medley é a expressão norte americana para a palavra francesa pot-pourri, que significa, em uma Produção musical de um mesmo autor, a união harmônica de diversas músicas, versos e refrões de outros autores em uma única faixa, sem a necessidade de se manter em um mesmo tema. A prática do Medley remonta-se desde o século XVIII, quando maestros de óperas clássicas abriam espetáculos misturando trechos de outros compositores.

PJota é um Beatmaker que também Produz, reMixa as Produções do mundo a si e volta a solta-las no mundo, como um Produtor musical. O Sample, algo intrínseco ao Gangsta Rap e a uma diversidade de estilos musicais, é a criação necessária para encontrar e gerar novos Beats. Apropriar-se é, nesse sentido, naturalmente expropriar da origem sem esvaziá-la, dotando-a de uma ressignificação contemporânea ao mesmo tempo que valorizando-a ainda mais por sua existência no passado. O Dj assim celebra com felicidade o encontro do passado no tempo presente, propondo que o futuro o Sampleie, pois deseja que um Beatmaker lhe re-re-Produza, do mesmo modo com que PJota reivindica uma atemporalidade mítica nos misticismos de seus trabalhos.

O refrão de Bonde do Milionários de Mc Ruzika, propõe o que neste Medley tenta-se apregoar: “E quando nóis che-go/ A festa co-me-ço/ É sempre assim ne-go/ Bonde dos milionários”.

Tiro, Porrada e Bomba”, um jorro de Beats para cima dos emocionados. Como disse a funkeira Valesca Popozuda em Beijinho no Ombro, ao aludir o que enfrentaria quem tivesse interesse em confrontá-la. A felicidade encontra os milionários quando eles encontram a festa, e vice-versa.  

Cypher - (Parte II)

A prática do Medley no mercado e cultura do Funk é um tanto difusa e não se configura como o que foi descrito há pouco, como um pot-pourri. Ao invés de um Produtor musical ou Dj Mixar em uma única faixa uma quantidade alta de músicas de diferentes compositores, rearranjando seus refrões e Beats, no Funk pode-se facilmente assistir a um encontro entre diversos compositores re-apresentando suas músicas já conhecidas junto a outros Mcs convidados, que, muitas vezes, são ainda desconhecidos pelo público.

No Funk costuma-se nomear Medley o que no Rap se entende por Cypher. Pois, sinteticamente, Cypher é um encontro entre compositores a fim de Produzirem uma Track com suas curtas letras. Track é neste ensaio também as obras de PJota. Cypher é uma expressão norte americana que se refere a união de alguns rappers para fazer um som, ou melhor, escreverem acerca de um tema ou simplesmente unirem letras pré-existentes a fim de, sequencialmente, se apresentarem em uma música ou clipe. Popularmente, acredita-se que um Cypher ocorre por meio do encontro entre rappers que, por estarem juntos, improvisam algumas rimas. Porém, tanto um Cypher clássico de alguns 5%ers quanto um atual da nova geração são gerados por meio de novas rimas escritas previamentes pelos rappers que são convidados a criá-las no encontro com os outros.

Five Percenters é a expressão que o ex-membro da Nação do Islã, Clarence 13X, usava para denominar os pertencentes a Five-Percent Nation, ou também Nação de Deuses na Terra: organização religiosa, educacional e política criada por 13X, que recebeu muitos adeptos jovens no Harlem (NY) da década de 1960. Em 1970 a cultura Hip Hop se espalhou por New York, saindo do Bronx e alcançando rapidamente o Harlem, fazendo dos estudiosos jovens 5%ers rappers politizados influenciadores de outros rappers. Dentre a nomenclatura própria criada e empregada entre os Five Percenters como códigos em espécie de uma cabala, chamada por eles de Matemática Suprema, havia o termo e símbolo Cypher, que nada mais é que a derivação do número zero em árabe. No código da organização, o zero representaria a potência do círculo, que uniria assim o conhecimento, a sabedoria e o entendimento de modo claro e reflexivo, responsável pelo círculo de influência pessoal de cada sujeito, sobre o qual cada um teria proximidade, autonomia e controle, assim como é sugerido nas rimas de Bonde dos Milionários.

O zero, um círculo, a representação da plenitude em algumas culturas e religiões orientais, nos lembra também a roda, ou melhor, as rodas de dança. Daí surge a outra história das Cyphers, também do Hip Hop. Antes mesmo do Rap se consolidar na cultura Hip Hop, os B-boy e B-girls Produziam encontros nas ruas para promover e testar novos passos. Eles chamavam de Cyphers as formações em roda que faziam antes mesmo de surgir o primeiro Mestre de Cerimônias nas Block Parties do Brooklyn. Assim, o zero, o círculo e a roda fazem do termo a união, o encontro entre os poetas e dançarinos.

O Medley experimentado narrativamente comigo, PJota, Mc Rukiza, Daniel De Paula, Mc Fioti, Bach, Kanye West, Valesca Popozuda e Clarence 13X na primeira parte deste ensaio é uma Cypher autorreferente que celebra a apropriação como tema e a expropriação como prática inventiva.

Esta exposição nomeada Medley é um Cypher.

Circle - (Parte III)

O Cypher realizado por PJota não é um encontro entre autores que reivindica ao seu círculo de influência profissional uma Produção conjunta de um Single. Em seu Cypher, as representações apropriadas são sujeitas de si mesmas, no sentido de que as influências do Beatmaker retornam também Mixadas por ele, como num claro Sample que dá voz ao compositor apropriado. O que elas transparecem vai além da generalidade de onde saíram: África, Grécia, anos 1990, bancas de jornal e etc. Os compositores que se encontram a convite de PJota realizam um Medley bem Produzido que sintetiza temas específicos: filosofia, cultura negra, mitologia grega, crime, misticismo e moda. É o que ocorre, por exemplo, com o azul do fundo de Cada cabeça uma sentença, pigmento específico do norte do Marrocos, adquirido em uma cidade chamada Chefchaouen, que se torna característica por ser quase em sua totalidade pintada de azul, pois sua população acredita que a cor a aproxima do céu.

E, por conta disso, seria importante juntar a esta roda do ensaio um caso grego entre a filosofia e o crime, que dispara até hoje especulações sobre o reconhecido crítico moral e pensador “anarquista” chamado Cão. A filosofia prática de Diógenes de Sinope é um tanto difusa e os diversos relatos sobre sua vida se contradizem, gerando até a atualidade certa confusão dentre os filólogos. Porém, mesmo com a realidade potencial em ficcionalizarmos ainda mais sua biografia, a representação de Diógenes é um ponto alto neste albúm de apropriações. 

Mas antes disso, faz-se necessário também dizer que o famoso ex-lutador de boxe que dá nome a uma das Tracks, pinturas-instalações, de PJota em Medley,Mike Tyson, também foi chamado pejorativamente de cachorro ao morder e arrancar com os dentes parte da orelha direita do então lutador Evander Holyfield. Para além disso, até os 13 anos de idade, Tyson já havia sido preso 38 vezes. Durante o exílio ele converteu-se ao islamismo e estudou largamente filosofia.

O Cão, ou melhor, o filósofo da escola cínica dos socráticos menores, Diógenes de Sinope, se exilou ou foi exilado de Sinope, sua cidade natal, pois teria “forjado” moedas. Acontece que seu pai, Iquêsios, reconhecido banqueiro da cidade que ficou responsável pelo dinheiro do Estado, teria adulterado o capital. Porém, alguns acreditam que o próprio Diógenes o fez, porque a ele teria sido confiado a superintendência das responsabilidades do pai. E em seu texto Pôrdalos é possível reconhecer sua confissão. Neste e em outros textos de outros autores, diz-se que Diógenes recorreu ao oráculo de Delfos a fim de compreender se deveria ou não realizar o crime. Alguns afirmam que o oráculo orientou-o a alterar as instituições morais e políticas de seu tempo, no que ele teria agido com literalidade forjando a moeda estatal.  

Se o Diógenes cometeu ou não o crime, não importa neste encontro. O que interessa é que, primeiro, o Cão é reconhecidamente um “filósofo criminoso” que deu partida a perspectiva política atual sobre o cosmopolitismo e, segundo, sem sombra de dúvidas ele alterou tanto as instituições morais e éticas da sociedade de seu tempo quanto da atual. É conhecida a frase de Diógenes que diz: “Sou uma criatura do cosmos, e não do Estado ou uma polis em particular”, acenando antes de tudo que ele era uma criatura e não somente um homem e que pertencia ao mundo e não apenas a um governo ou sociedade.

O crime não é o creme, afirma no título da música o grupo de Rap Realidade Cruel. “Creme? Nem crime, sigo firme, lembre”, é um dos versos da rima do grupo na letra da música que poderia ser lema de um Diógenes contemporâneo. O filósofo era constantemente visto pelos cidadãos rolando na areia quente durante o forte verão e abraçando monumentos cobertos de neve no inverno, demonstrando-se naturalizado, assim como um cão, às dificuldade da vida material. Ao escolher o “crime” como meio de vida e constituição de sua filosofia, numa auto-legitimação, Diógenes sabia que não teria experiências doces e agradáveis como costumam ser os cremes, que teria de viver com honestidade e simplicidade radicais, como os próprios cães de rua o fazem, andando em círculos antes de se acomodarem.

PJota lança no dia 10 de abril de 2018, três dias após a abertura de Medley, o projeto Between Philosophy And Crime pela Classic Paris. “Entre a filosofia e o crime” é um box que contém um livro que faz um compêndio de fotos do artista realizadas em suas passagens por países de terceiro e primeiro mundo, adesivos de banca de jornal com diferentes tribais e uma camiseta com uma estampa de uma foto do centro de São Paulo na frente e nas costas a lista de países em que foram Produzidas as imagens do livro. Este box, na perspectiva deste círculo, é uma Storytelling bem desenvolvida que condensa as influências de PJota em registros sem representação, como apropriações diretas de uma rima que sintetiza uma vida inteira de expropriações.

Assim é, nesta perspectiva, a Produção realizada em Front Line. A Track apresenta três máscaras representadas, duas oriundas de diferentes regiões do continente africano e a terceira da Grécia. Ao lado esquerdo, no fundo preto do medo e da imaginação, emolduradas com a representação de um pantone africano de dentes ou ossos brancos, duas figuras: a com listras é do Congo e a que não olha frontalmente o Pazuzu, reconhecido Deus do Vento da mitologia Suméria. Ao lado direito, no fundo mais brando, quase cinza, nebuloso e sem emolduramento representado, emoldurado pela própria placa que o recebe, a figura similar à divindade do candomblé Exu.

PJota, com Front Line, gera um círculo “criminoso”, potente como a intelectualidade espiritual de Diógenes, selvagem como a força simpática de Tyson e coerente com a diáspora filosófica africana, incriminada constantemente pelo colonizador ocidente. Parece que o Beatmaker enumera os sujeitos capazes de enfrentar as instituições que não os acolhe, não os legítima e não os reconhece, sem deixá-los perder suas origens.  

Full Album

Este ensaio, realizado antes de seu lançamento, resultou em um álbum Ep composto por quatro partes contínuas, com suaves passagens entre uma Track e outra, e permeado algumas vezes pelo clássico Boom Bap e outras pelo atual Trap. Com uma minutagem longa, lembrando a Golden Era tanto nacional quanto norte-americana do Rap, nenhuma faixa termina a fim de começar outra, pois nesta Ep a variação de Flows líricos e pictóricos é o que possibilitou Produzir um álbum sem intervalo, sem pausa na Mixagem, como em uma única Track.  

Como uma séria Storytelling com espaçadas variações bem humoradas, apresenta-se neste registro do ensaio a ficha técnica dos elementos que constituíram seus encontros e formaram seu círculo de influência, misturando-os com os Beats de PJota e suas origens subjetivas.

Bach, ou melhor, Johann Sebastian Bach, foi um músico do Sacro Império Romano-Germânico, atualmente Alemanha, que se tornou mundialmente conhecido por sua habilidade virtuosa ao órgão e ao violino e, também, por suas composições complexas e cheias de variáveis com a música barroca.

 
Dentro do Hip Hop, talvez, Sebastian Bach tenha sido reconhecido como um dos primeiros Beatmakers da história ocidental. Beatmaker, o profissional da música criador de Beats, é um dos responsáveis mais importantes na atualidade pela instrumentalidade Produzida nas melodias do Rap. Praticamente, este sujeito constrói a sequência de loops de instrumentação ao vivo e virtualmente também Sampleia outros pedaços de Tracks de outros artistas.  

Ao comentar, por WhatsApp, sobre a importância dos planos de fundo de seus trabalhos, PJota discorre: “o fundo não deixa de ser uma apropriação menos importante, na verdade, meu trabalho é uma apropriação inteira né. Eu, às vezes, explico que é como fazer um Beat, como os Beatmakers fazem, os Produtores. Eles pegam uma música pronta e a Sampleiam, re-organizando-a e gerando assim novos sentidos”.  

Block Parties, ou ainda festa em bloco ou um bloco em uma festa, no que consiste a história do Hip Hop, tiveram seu início nos anos 1970 na região do Bronx (NY), em que enormes grupos de jovens negros ocupavam com felicidade blocos inteiros de apartamentos abandonados do bairro. Porém, antes disso, Block Parties também poderiam se referir às festas ilegais, realizadas sem autorização estatal nas ruas do East Side, que bloqueavam literalmente as passagens pelos bairros. As Block Parties mais conhecidas atualmente do contexto brasileiro são as reuniões nas ruas de enorme número de jovens periféricos chamadas Pancadões ou Fluxo. O Pancadão faz referências direta aos Beats da música Funk, aludindo à uma enorme pancada, ou porrada, pela força do grave nas melodias do ritmo. Tais festas são as mesmas responsáveis por também promocionar Hits do Funk, como as músicas Bum Bum Tam Tam do cantor, compositor e Produtor Mc Fioti e Bonde Dos Milionários do funkeiro Mc Ruzika.

Umas das expressões mais comuns utilizadas nos contextos do Rap e do Funk é a chamada “pocas ideia”. Aludindo, de modo formal, naturalmente ao interlocutor que apresenta um discurso resoluto, claro e sintético com o uso de poucas palavras, a expressão toma outro significado no uso entre jovens de periferia. “Pokazideia”, como atualmente se escreve nas redes sociais, nos leva ao zero, a anulação do discurso, deixando claro ao outro que escuta que o interlocutor não tem interesse de compartilhar qualquer coisa com ele, fechando assim o círculo de diálogo. Pokas é o nome da Track de PJota que apresenta dois diferentes planos justapostos. Ao lado esquerdo, o Trap cru metálico de fundo com um ornamento circular em preto de tribal, salpicado por três pinturas de adesivos pintados em preto e branco que aludem a olhos aborígenes desenhados em espiral. Ao lado direito, num Boom Bap verde, a representação de duas cabeças de estátuas gregas quebradas, quase em decomposição, também salpicadas ornamentalmente pelas mesmas pinturas de adesivos, porém este plano se Sampleia numa moldura magenta que recorda representações de ondas bizantinas. Há pouco a ser dito, a não ser que cada palavra contém, como pensava o filósofo Platão, a ideia dela mesma contida em si. Duas palavras são o bastante para alcançar a anulação. Afinal de contas, um menos um é igual a um círculo, um sujeito sem ouvido e outro sem boca, Pokas, sem idéia.

Dj, Disc Jockey, foi o termo criado para referir-se aos locutores que tocavam músicas nas frequências de rádio por meio dos discos. Assim como no jóquei, o Dj é o sujeito que monta a discotecagem com diferentes discos. Ao vivo, sua performance consiste em Mixar uma sequência de Tracks. Porém, virtualmente, o Dj também recombina as Tracks já existentes no mundo Produzindo outras novas, tendo também por isso o reconhecimento como compositor.

Ep, abreviação para Extended Play, é uma gravação que, por ser longa demais, não se considera um Single e também, por ser muito curta, não se classifica como álbum. No Brasil, a prática de Produção de Eps apareceu na década de 1960 como um índice, pois anunciavam os lançamentos de álbuns completos no futuro. Um Ep é um mini-álbum que costuma conter de 3 a 6 Tracks, assim como em viagens curtas a trabalho, em que um álbum de fotos registram o que interessou PJota em suas transições pelas ruas das cidades em Between Philosophy And Crime.

Dentro do circuito de arte acostumou-se investigar as poéticas dos artistas, assim como os artistas se desenvolveram em uma poética particular. O Flow, dentro do Rap, é o que muitas vezes faz-se facilmente identificar um compositor e cantor, responsável por marcar sua fluência, fluxo, nas construções das rimas e no modo de cantá-las. Sinteticamente, Flow definiria o modo fluído com que um rapper faz encontrar sua letra com o ritmo da música de acordo com os Beats na Track acompanhados pelas rimas, do mesmo modo que costumamos encontrar as chamadas poéticas nas trajetórias das Produções dos artistas.

A expressão Flow teve reverberação inicial por meio das Storytellings da vertente Gangsta Rap. Neste tipo de Rap, ao apresentarem crônicas de crítica social e denúncia política, os rappers Produziram um Flow mais lento, encaixados em bons Boom Baps. Como abreviação de gangster, o rapper Gangsta poderia sim ter envolvimento com o crime, mas, ao relatarem as realidades das periferias dos Estados Unidos da década de 1980, faziam de suas letras a afirmação de que suas escolhas ao mundo do crime não eram fáceis e a serem seguidas.  

Golden Era do Rap foi um período de cerca de 10 anos, estabelecido aproximadamente entre 1985 e 1995, em que, para além da multiplicidade de referências culturais apresentadas pelos rappers à época, demonstrando ecletismo musical, também, se legitimou pelo forte posicionamento político dos compositores mesclados com as experimentações instrumentais de diferentes gêneros musicais. A Golden Era não só coincidiu com o surgimento do Gangsta Rap como também recebeu influência decisiva dos Five Percenters, a qual é possível reconhecer por muitas expressões e códigos da organização encaixarem-se nas rimas dos rappers da época.
 
A Golden Era foi enorme Produtora de Hits, ou melhor, de Hits Singles, expressão que refere-se a quando uma música encontra espaço no mainstream ao mesmo tempo que se torna conhecida popularmente por meio da divulgação entre os fãs e mesmo nas rádios e redes sociais atuais.  

Para Produzir qualquer música dentro do Rap ou Funk é necessário Mixar. A Mixagem é uma prática que, por meio de uma multitude de sons fonográficos, recombina diversos tipos de Beats em um ou mais canais de captação. Qualquer som captado, tanto dentro do estúdio quanto na rua, pode ser Mixado.  

Imagine que na Nação do Islã, ideias culturais, políticas e religiosas acerca dos afro-americanos da década de 1930, eram Mixadas por Wallace D. Fard, fundador da organização da qual Clarence 13X saiu e formou, em uma nova recombinação, a Five-Percent Nation. Tanto uma quanto a outra tiveram o interesse específico em lutar pela melhoria das condições econômica, social e espiritual dos negros nos Estados Unidos.  

Recentemente PJota afirmou que o interesse pelo continente africano surgiu na infância, quando ao se deparar com os ornamentos e jóias que se apresentavam em seu círculo de influência, programas de Tv e livros, começou a Produzir combinações destas imagens em seus desenhos.

O Produtor musical é o que atua diretamente na pré-Produção das músicas. Além de criar alguns Beats, ele principalmente auxilia na entonação e impostação do músico. O Produtor seria o regente da Produção musical inteira, conduzindo os elementos e aspectos das Tracks e dos álbuns.  

Punchline é uma linha em formato de soco, ou melhor, um verso da letra do rapper que é forte por ter a função de atacar outro rapper, marcar território, demonstrar habilidade lírica ou mesmo ser engraçado. O termo, na verdade, é oriundo da comédia, em que tanto em seriados cômicos quanto em stand ups usava-se da peculiaridade da narrativa para terminar apimentadamente uma piada.

Sample, em Medley de PJota, são ornamentos em forma de representação de molduras nas Tracks, assim como os Beats são as figuras representadas pelo artista em meio aos círculos de apropriações que faz em seus sons. Som, nesse caso, é uma Track, ou mesmo, uma pintura-instalação do Beatmaker, do artista. Um Sample é uma amostra sintética de uma outra música na Track de um rapper ou de qualquer outro músico. O Sample é uma apropriação direta de outros gêneros musicais que revolucionou o mundo do Rap na década de 1980.

O Sample, sendo uma moldura bem encaixada na música de outro artista, é o que possibilitou dar melhor conhecimento e respeito às Storytellings dentro do Rap, pois muitas vezes sua prática permitiu ilustrar o que nas crônicas da realidade periférica se fazia necessário denunciar. A personalidade gerida por meio das Storytellings é de altíssima persuasão, demonstrando enorme relevância social nos anos 1980 dos Estados Unidos e nos 1990 do Brasil.  

Uma Storytelling costuma ser muito longa, assim como o registro deste ensaio, contendo até 15 minutos em um única Track, uma faixa de um álbum de um rapper ou grupo. Atualmente, poucas Storytellings são Produzidas dentro do Rap, até mesmo porque entende-se que vivemos outro momento histórico, mais rápido e com abundância de informações de múltiplos contextos. Tal realidade fez surgir, por exemplo, um outro estilo de Rap que se formaliza pela instrumentalidade que condensa maior quantidade de Beats em um curto período. O ritmo Trap iniciou-se na virada do século XX ao XXI, quando em 2007 se tornou popular por apresentar um instrumental que unia variados Beats em um, dois e até três tempos da música, gerando assim, conseguentemente, simplicidade de rimas e temas menos profundos nas letras.  

Nos sons de PJota, alguns momentos são ritmados pelo Trap, quando, por exemplo, o Beatmaker insere num mesmo plano de representações vasos gregos e figuras negras coroadas com adesivos pintados de palhaços. Isso ocorre em Nem tudo que reluz é ouro, que é uma das Tracks de Medley, e que apresenta um fundo, plano de cor, de apropriação literal, sem ser coberta por outra camada de tinta, deixando o estilo Varporwave do metal amarelo tocar livremente.   

Vaporwave, onda-de-vapor, é um gênero musical e artístico que tomou corpo ainda nesta década, em 2010 mais precisamente, dentro de comunidades digitais espalhadas pelas redes sociais. Sua característica marcante é uma personalidade nostálgica aos anos 1980 e 1990 e, ao mesmo tempo, apresenta forte sarcasmo ao consumo capitalista. As referências que nele mais ocorrem são elementos estéticos clássicos como estátuas gregas, a publicidade e cultura de massa japonesa  e a estética dos video-games.  

Ao ser perguntado o por que do interesse tão intenso pelo mundo do crime, PJota informou: “A relação com o crime, acredito eu que também venha da minha família, porque minha mãe trabalhava no sistema carcerário e costumava me trazer os presentes que os exilados lhe ofereciam e, também, meu avô é um reconhecido advogado criminal, que sempre contava as histórias de seus casos nas reuniões de família”. Tal relato faz lembrar de Cada cabeça uma setença, Track de PJota, que com o título faz alusão de que dentro do crime organizado, e até mesmo do sistema judiciário brasileiro, cada preso tem sua sentença específica, sofrendo aquilo que é de acordo ao seu ato criminoso.  

Introduzidos pela expressão que dá nome à pintura-instalação, percebemos que o tribal que emoldura as três cabeças enfileiradas verticalmente — aludindo aos três poderes estatais (Executivo, Legislativo e Judiciário) ao mesmo tempo que às três organizações criminosas de maior relevância no país (Amigos dos Amigos, Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital) — tem um ritmo lento, como um Boom Bap (é um tipo de Beat clássico do Rap, originário do Soul e do Funk, que se dá em forma de loop, e é responsável pelos maiores clássicos da história do Rap mundial). Ao lado esquerdo, coroas de arame farpado são representadas uma dentro da outra, da maior para a menor, e com elas não somente a retomada dos anos 1990 nos vem à lembrança como também a própria figura de Cristo. E, nesse caso, não há nenhum Sample, moldura, que acompanhem as coroas em perspectiva superior, pois elas mesmas se tornam figuras sem representação.

PJota parece, em toda sua trajetória mais recente, não somente em Medley e em Between Philosophy And Crime, realizar uma homenagem às suas experiência na infância. Ao ter inserido no seu mundo os contextos dos exilados, do crime, a mãe de PJota o influenciou definitivamente, assim como seu avô, os livros que lia e os programas de Tv que assistia, tornando seu círculo de referências o seu próprio círculo de influência.

Este ensaio em formato de Ep é um Medley que, como um ritual, celebra a passagem da fantasia à realidade de uma Produção.


– Leonardo Araujo Beserra

Paulo Nimer Pjota (São José do Rio Preto, 1988) vive e trabalha em São Paulo.
Suas exposições individuais recentes incluem The history in repeat mode — image, Mendes Wood DM, Bruxelas (2017); The history in repeat mode — symbol, Maureen Paley / Morena di Luna, Hove (2017); Paulo Nimer Pjota, Centro Cultural São Paulo, São Paulo (2012).
Suas obras também foram inclusas em mostras coletivas institucionais como Painting |or| Not, The KaviarFactory, Lofoten, Noruega (2017); Soft Power, Kunsthal KAdE, Amersfoort (2016); 19º Sesc_Videobrasil, São Paulo (2015); Here There, Qatar Museums – Al Riwaq, Doha (2015); Imagine Brazil, Astrup Feranley Museet, Oslo (2013) / DHC/Art Foundation for Contemporary, Montreal (2015); 12 Biennale de Lyon, Lyon (2013).

Leonardo Araujo Beserra (São Paulo, 1989) vive e trabalha em São Paulo.
É escritor, curador e editor independente, responsável por escrever ensaios conceituais sobre arte contemporânea, conceber e realizar programas públicos e editar livros de arte e política.


A Mendes Wood DM gostaria de agradecer à Coleção Ivani & Jorge Yunes pelo seu generoso emprestimo das peças de antiguidade para esta exposição. 

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