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Nascer, uma vez após a outra

31/08 2014 – 04/10 2014


Eu fiz esses trabalhos porque eu estou precisando de proteção, ninhos, mas este pensamento, sobre por quê eu fiz, ou faço, vem depois, é engraçado, primeiro eu faço, depois eu penso. Acho que as coisas que estão no nosso inconsciente são muito mais importantes que o pensamento, cada vez eu tenho mais certeza que o pensamento é feito por coisas que nós já conhecemos, que estão na superfície, uma camada muito fina que inclui a razão, tem sido assim sempre.

Quando as obras vão tomando forma, quando eu já trabalhei muito nelas, eu penso por que eu estou fazendo isso? Aparecem coisas que eu acho que não conheço. Eu tenho dificuldade de me expressar, minha expressão está toda no meu trabalho, eu digo, a expressão verbal, pela linguagem, aí eu começo a ler coisas, eu encontro similaridades num livro como esse do Bachelard, A Poética do Espaço, o resultado é que meu trabalho está cada vez mais poético, eu vejo ele assim. Só que a minha ferramenta não é a poesia da palavra, isso aqui não é poesia? Vem da alma, e agora ela fala desses lugares: o berço, o ninho, a gaiola, como forma de libertação.

A gaiola, por exemplo, é uma forma de libertar, você não acha? A gaiola é esteticamente um objeto maravilhoso, mas tem a função de aprisionar, a gaiola, sem nada dentro, é linda, é um lugar todo vazado, aí eu abro mais a gaiola, é a primeira coisa que faço, retorço ela toda, abro mesmo, e transformo a gaiola num lugar acolhedor, a gaiola como um ninho. Há um outro ninho que eu chamo de berço, o ninho é um berço e vice-versa, eu não lembro se tive um berço, eu lembro de ter tido uma cama, mas não lembro de berço. O berço, assim como o ninho, acolhe o ser no estágio mais frágil dele, para protegê-lo, eles são lugares, moradas.

Penso agora no ventre da minha mãe, para onde eu gostaria de poder voltar, muitas vezes, ou não ter saído, durmo ainda hoje na posição fetal, isso é normal? E eu sempre construo ninhos, berços, na vida, se existe a possibilidade de eu ir trabalhar numa outra cidade, por exemplo, eu não sei chegar num galpão e começar o trabalho, eu preciso encher o espaço primeiro. Eu reconstruo meu mundo em qualquer lugar que eu vou, e se eu não tiver esse lugar, se eu não conseguir reconstruir, eu não consigo ficar, pode ser onde for, do tamanho que for, mas eu tenho que me reconstruir ali dentro, e esse meu lugar é feito de coisas simples, objetos que eu coleto, coisas que eu gosto de olhar, como um  pássaro mesmo, que pega o que está ao seu alcance. Eu sempre observei como os pássaros constroem os ninhos, eles usam o que têm, uma vez uma prima chegou na minha casa com um ninho que ela tinha achado, eu fiquei observado a amarração que eles fazem, e o que continha, até pedaço de pano tinha na base, acho que era um pássaro urbano. Eles cerzem, prendem, amarram tudo o que encontram, o que conseguem carregar, fazem do ninho um útero fora do corpo, e estar ali, ser cuidado ali, é como se preparar para nascer, de novo, eu, pessoalmente, acho que nasci mais uma vez há dezesseis anos atrás, quando incorporei o meu trabalho em mim, e ainda me sinto assim, e deito na posição fetal, construo esses lugares de proteção. Se estivermos atentos podemos, nesta vida, nascer sempre, uma vez após a outra.

Sonia Gomes nasceu em 1948 em Caetanópolis, Brasil, vive e trabalha em Belo Horizonte, Brasil. Participou de inúmeras mostras coletivas, incluindo A Nova Mão Afro-Brasileira, Museu Afro Brasil, São Paulo, Brasil (2013); Art & Textiles – Fabric as Material and Concet in Modern Art, Kunstmuseum Wolfsburg, Wolfsburg (2013); Out of Fashion. Textile in International Contemporary Art, Kunsten – Museum of Modern Art Aalborg, Aalborg (2013); Alphabet of The Magi, Mendes Wood DM, São Paulo (2012). Teve exposições individuais como Risco do tempo, Mendes Wood DM, São Paulo (2012); O ritmo da linha, Espaço cultural Fórum Lafayette, Lafayette (2012). 

Júlia Rebouças nasceu em aracaju, em 1984, e vive em belo horizonte. Curadora, crítica e pesquisadora de arte, trabalha no Instituto Inhotim desde 2007, onde ocupa o cargo de curadora. É mestre e doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da Universidade Federal de Minas Gerais.


– Júlia Rebouças

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