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Noite Azul Elétrico

06/22 2013 – 07/27 2013


A noite. A exposição ocorre entre os dias 22 de junho e 27 de julho. Justamente durante o solstício do hemisfério sul. O período em que as noites são mais longas e os dias conseqüentemente mais curtos. As noites são perfeitas para se contar um estória, para divagar um pouco sem rumo, como uma nau, para o sonho, para a festa, para o encontro. A noite é um grande pano de fundo, ou a grande tela, onde os trabalhos de diversos artistas podem compor uma imensa paisagem. A paisagem aqui começa com o branco azul verde e cinza da parede escolhido pelo artista Lucas Arruda.

O Azul. O azul é a encruzilhada entre a poesia e as artes plásticas. O azul foi durante séculos o ouro das cores. Somente há 6.000 anos atrás o pigmento azul foi descoberto no Afeganistão. Antes não era possível pintar esta cor. Os egípcios usavam o azul sempre com o ouro. Ao longo da história da arte, o azul foi uma icônica, com motivos óbvios de pureza no azul do manto da nossa senhora. Nos contratos entre a parte que comissionava um trabalho e o artista que iria executá-lo, sempre ficava muito claro quanto e que tipo de azul seria usado na tela, pois o pigmento era o mais raro e conseqüentemente o mais caro. A vasta maioria das civilizações não tinham uma palavra para distinguir entre o azul e o verde. No Japão, até o início do século XX só existia a palavra AO para as duas cores e até hoje muitas vezes, como o sinal verde de trânsito lá, eles chamam de azul. Uma cor então indeterminada. Um espécie de fronteira, como toda a paisagem.

O Elétrico. Já a eletricidade é a magia. Fonte da luz elétrica que ilumina, como na grande tela Guernica de Picasso. Em Noite Azul Elétrico, Jac Leirner com Little Light ilumina a paisagem e ativa o substantivo elétrico do espaço. Talvez o trabalho mais metafórico da artista, ele permite uma estranha fronteira entre o poético e o minimalismo. A noite se faz mais noite e mais longa pelo paradoxo da luz. A eletricidade também projeta a cartografia, baseada no campo magnético da bússola. Aqui indicada pela obra Compass de Olafur Eliasson.

Uma exposição sem conceitos ou temas, Noite Azul Elétrico é uma paisagem. Uma imagem que tenta ativar a essência poética das obras de arte. Na tela de vídeo elétrica, Karen Harley, Cao Guimarães e Letícia Simões, de formas diferentes trazem a poesia, seja por meio do Leonilson – talvez o artista mais próximo de uma poesia no Brasil no final do século XX – em Com o oceano inteiro para nadar, seja em Concerto para clorofila, a paisagem poema de Cao Guimarães, ou no intimismo lírico do vídeo Cesariny da poeta Letícia Simões. Filmes para serem vistos relaxando num banquinho da Rivane Neuenschwander, o convite para a prosa. 

Na tela da Patrícia Leite a noite azul se faz presente, e nas palavras de fmarquespenteado o poema surge, assim como nas mensagens azuis de Fábia Schnoor. A paisagem ébria da noite volta na Paisagem Pinga da Márcia Xavier, e finalmente o plano volume de José Bento, arcabouço conceitual para uma paisagem. Tudo visto por Willys de Castro, artista que sempre foi entendido como escultor mas que talvez devesse ser repensado como um pintor. O mais intenso e concentrado dos pintores brasileiros.

Noite Azul Elétrico como escrevi, não é um conceito, nem um tema, apenas uma imagem.


– Ricardo Sardenberg



Soneto do Desmantelo Azul 

Então, pintei de azul os meus sapatos 
por não poder de azul pintar as ruas, 
depois, vesti meus gestos insensatos 
e colori, as minhas mãos e as tuas. 

Para extinguir em nós o azul ausente 
e aprisionar no azul as coisas gratas, 
enfim, nós derramamos simplesmente 
azul sobre os vestidos e as gravatas. 

E afogados em nós, nem nos lembramos 
que no excesso que havia em nosso espaço 
pudesse haver de azul  também cansaço. 

E perdidos de azul nos contemplamos 
e vimos que entre nós nascia um sul 
vertiginosamente azul. Azul. 

– Carlos Pena Filho


O Azul 

Do azul eterno a serena ironia
Esmaga, indolentemente bela como as flores,
O poeta impotente que maldiz o seu génio
Através de um deserto estéril de Dores.

Fugindo, de olhos fechados, sinto-o a olhar
Com a intensidade de um remorso aterrador,
Para a minha alma vazia. Para onde fugir? E que noite perturbada
Lançar, farrapos, lançar sobre este desprezo aflitivo? 

Nevoeiros, subi! Deixai cair as vossas cinzas monótonas
Com longos trapos da bruma nos céus
Que afogará o pântano lívido dos outonos
E erguei um grande tecto silencioso! 

E tu, sai dos charcos letianos e recolhe
Ao regressares, a jarra e os pálidos juncos,
Caro Tédio, para tapar com uma mão nunca cansada
Os grandes buracos azuis que os pássaros fazem maldosamente. 

E mais! que sem cessar as tristes chaminés
Fumeguem, e que de fuligem uma errante prisão
Extinga, no horror das suas negras linhas,
O sol morrendo amarelado no horizonte! 

– O Céu está morto. – Em tua direcção, refugio-me! dá, ó matéria,
O esquecimento do Ideal cruel e do Pecado
A este mártir que vem partilhar a liteira
Onde o gado dos homens está deitado feliz, 

Porque eu quero aí, uma vez que o meu cérebro enfim, esvaziado
Como um maço de palha caído ao pé de uma parede,
Já não tem a arte de dourar a ideia soluçante,
Lugubremente bocejar num passamento obscuro... Em vão!

O Azul triunfa, e ouço-o a cantar
Nos sinos. Minh'alma, ele faz-se voz para mais
Nos meter medo com a sua vitória maldosa
E do metal vivo sai em angelus azuis! 

Ele rola pela bruma antiga e atravessa
A tua agonia nativa tal como um gládio seguro
Para onde fugir nesta revolta inútil e perversa?
Estou assombrado. O Azul! O Azul! O Azul! O Azul! 

– Stéphane Mallarmé 

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