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Mendes Wood DM tem o prazer de apresentar a terceira exposição individual do artista mineiro Paulo Nazareth na galeria. A mostra reúne trabalhos recentes que levantam questionamentos a respeito da historiografia da arte brasileira no período do modernismo e que se estende até hoje, sobre a comercialização que nasce do genocídio dos índios no Brasil e da relação do imigrante e o meio urbano. A seleção de trabalhos se formam a partir de instalações, vídeo e cartazes.

Na série Produtos do Genocídio, Nazareth pesquisa todos os produtos e organizações que se utilizam de nomes e elementos da cultura indígena e da afro-diáspora. É a dolorosa lembrança de um extermínio e também uma recordação póstuma. A série é uma convocação para reflexão sobre o genocídio que não deve ser esquecido. Recordar-se que produtos não compensam os povos mutilados, dizimados, aculturados. Os objetos encontrados – como uma garrafa de bebida Koikoi – são apresentados dentro de blocos de resina, em direta alusão ao congelamento histórico das questões apresentadas pelo artista, como: onde estão os aimorés, aimborés ou botocudos, os tupi-guaranis, os apaches, tupinambás? Quem eram os quilmes? 

Na sala seguinte é apresentado o filme Ol Ori Buruku. O trabalho é sobre um imigrante nigeriano no topo do Edifício Itália, olhando para a cidade de São Paulo, enquanto derrama insultos em língua ioruba. Nazareth levanta a questão sobre o imigrante de origem africana que, devido à tragédia vivida em sua terra natal, vê-se forçado a procurar um lugar seguro longe de seu país, mas além disso, como muitos outros, acredita na idealização que gira em torno dos grandes centros urbanos, que propõem um futuro sem doenças do passado. Ao viver a realidade concreta da cidade que ele idealizava anteriormente, o homem de origem nigeriana, desconstrói seus sonhos e reconhece sua própria frustração, separando-se da morte, da desigualdade e do mal que ressoa na luta contra esta realidade. Ele descarrega essa frustração e o questionamento sobre a separação entre o homem africano e sua origem geográfica e cultural, e também a diáspora de seu povo em todo o mundo. Ele faz isso através de insultos em ioruba, a linguagem da segunda leva de negros escravizados pelo trafico trazidos da África para o Brasil. Referências linguísticas unem o passado e o presente em um conflito cheio de simbologia, para falar de um problema de proporções históricas. Ol Ori Buruku é um juramento em ioruba que significa má mentalidade, com a palavra Ori significando a essência do ser. A identidade é a questão a ser tencionada, e como ela afetou a formação das sociedades, a paisagem urbana e a vida dos imigrantes. Devido às transmutações no capitalismo, esses imigrantes precisam desfazer seus traços culturais para se adaptarem a uma sociedade que, em todos os casos, não permite ao indivíduo manter a preservação de sua identidade como um todo.

Ao final da exposição o artista apresenta Bestiário Capital – uma série de desenhos de animais que são  logomarcas de produtos para o mercado em geral – Além dos desenhos,  cartazes de bailes e eventos de periferia, com inserções de círculos brancos pintados pelo artista com Pó de Pemba (Efun), ironizam a importância historiográfica do movimento concretista brasileiro como um circuito social branco, rico e fechado, que em função de uma relação de poder, escondeu e marginalizou a produção que existia fora desse grupo. O círculo pintado com efun – feito a partir do Cal, que por muito tempo foi usado para pintar os barracos do povo –  faz referencia às bolas brancas da galinha de angola, feitas por Oxala para espantar a morte. Nazareth provoca o embate entre a favela e modernismo na arquitetura que expulsa o povo de seu lugar até hoje, não só geograficamente, mas em todos os contextos possíveis. 

Paulo Nazareth (Governador Valadares, 1977) Vive e trabalha ao redor do mundo. Suas mostras incluem:  Much wider than a line, SITE Santa Fe, USA (2016); Soft Power. Arte Brasil, Kunsthal KAdE, Amersfoort, Holanda (2016); All The World’s Futures, 56th Biennale di Venezia, Veneza, Itália (2015); The Rise and Fall of Art Biennales, LATVIAN Center for Contemporary Art, Riga, Latvia (2014); Entre-temps... Brusquement, et ensuite, 12e Biennale de Lyon, Lyon, França (2013); The Encyclopedic Palace, 55th Biennale di Venezia, Veneza, Itália (2013).

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