Vistas da exposição
1 de 20
Obras
Slideshow
1 de 16
Thumbnails
Texto

19/01 2018 – 07/04 2018

Les idées sont aux choses ce que les constellations sont aux planètes.

Walter Benjamin

Lançar mundos no mundo.
Caetano Veloso

Elaborar um texto é buscar, compondo, palavras e expressões que possam desenhar a ideia que existe, antes de tudo, enquanto imagem no pensamento. Daqui, de onde escrevo, vejo o céu amplamente, o encontro dele com o mar e uma grande quantidade de plantas e pássaros que nele se movimentam, cada um em seu ritmo. Talvez seja mesmo o lugar propício para anotar minhas impressões e emoções diante dos trabalhos de Patrícia Leite: um verdadeiro encontro com a possibilidade de se apropriar do céu através do olhar. Afinal, a paisagem que vejo, a vida que vejo, é fundamentalmente tecida no pensamento, assim como o pensamento é tecido na paisagem, na vida, em um processo contínuo.

A pintura de Patrícia Leite é uma forma de pensamento acerca do comportamento das coisas do mundo diante da luz. Ao atentar para a vida das coisas, a pintora traz as coisas à vida, ou ainda nos confere uma poética delas. Em Olha pro céu, meu amor, a artista, seguindo sua linha de investigação e seu interesse pela paisagem, revela uma série de trabalhos em que o céu é o tema. Nesses trabalhos, o céu é uma multiplicidade: ele aparece como fundo e como figura, como paisagem e como meio-ambiente, como fonte e acontecimento da luz, como continente e conteúdo... 

A pintura que dá nome à exposição, Olha pro céu, meu amor mostra uma paisagem noturna em que um enorme céu estrelado toma a quase totalidade da superfície pintada, ocupando e ampliando o espaço no entorno com seus tons escuros de preto e azuis profundos. Abaixo, na parte inferior do quadro, notamos uma fina linha furta-cor que brilha timidamente separando a cadeia de morros verdes da massa escura ao fundo. A linha clara que separa as duas massas de cor, a preta azulada e a verde, afronta a densidade dos tons escuros, além de conversar com as estrelas que brilham na parte superior da imagem: são pontos de luz disseminados, como se fossem pequenas aberturas que atravessam a superfície para encontrar passagem do outro lado. 

Patrícia Leite opera, frequentemente, desafiando a oposição entre representação e figuração. Seus trabalhos se fabricam a partir da sobreposição de cores em que montanhas, estrelas, raios, frestas e pingos se destacam a partir de linhas e pontos delineados entre as camadas de tintas. Os trabalhos Explosão I, Explosão II e Chuva foram feitos a partir de fotografias de fogos de artifício estourando. Aqui, os delirantes raios e gotas de luz dos fogos confundem o espectador e se o olhar se demora um pouco, a abstração é o que prevalece. Ademais, por serem trabalhos de grandes dimensões (todos com 1,60m de altura por uma variação que pode alcançar de 1,80m a 2,20m de largura), Olha pro céu, meu amor, Explosão I, Explosão II e Chuva ampliam a experiência de olhar em direção ao céu para uma experiência de olhar entorno de si, de estar envolto pelo céu. 

Diante de uma imagem, não se deve perguntar somente qual história ela documenta e qual memória ela sedimenta, mas também quais as memórias ela ativa. De quais elementos de afeto e de falta ela representa o retorno? 

Em sua estadia de três meses em Bruxelas (entre dezembro de 2016 e fevereiro de 2017), Patrícia Leite observava diariamente, a partir das janelas de seu ateliê temporário, a catedral Notre Dame du Sablon – imponente jóia gótica do século XV. Essa foi a primeira vez em que a artista passou um período longe de seu ateliê brasileiro, e a mudança de contexto, durante os meses de inverno europeu, provocou uma espécie de desejo de retorno imediato, recorrendo a sua memória afetiva de temas e lugares familiares. Assim, ela trabalhou sobre imagens de igrejas mineiras do século XVIII, tão presentes em seu (e em nosso) vocabulário imagético. Nossa Senhora dos Prazeres e o vitral Ó são resultados dessa deriva criativa. 

Segundo a artista, sua produção vem quase sempre de seu “caderno de esboço”: uma coleção de fotografias de lugares visitados e situações vividas que servem como um diário ilustrado, oferecendo um estudo de formas e cores. O projeto do vitral Ó, para as três grandes janelas da galeria, se delineia a partir de uma foto da Igreja de Nossa Senhora do Ó, em Sabará, Minas Gerais: pequena igreja do século XVIII, abriga rica e complexa obra em pintura sobre painéis. Trata-se de uma referência importante para a artista, que a conhece com intimidade. Sua fachada é simplificada, não sendo muito diversa de outras de inúmeras igrejas do interior de Minas Gerais. No desenho do vitral, vemos a igreja em primeiro plano ladeada por montanhas verdes e encimada por um céu azul claro: uma típica paisagem mineira. No vitral, a paisagem mineira estará atravessada pela luz do exterior, deixando se sobrepor a ela a paisagem da cidade de Bruxelas – neste caso, a visão da grande catedral Notre Dame du Sablon, a poucos metros da janela. O vitral funciona ali não somente como uma membrana entre mundo exterior e interior, mas antes como uma conexão entre as imagens de dois mundos diversos, duas histórias estrangeiras. 

Olha pro céu, meu amor, título dessa exposição nos remete ao verso inicial de Olha pro céu, uma canção sobre o amor na festa de São João de Luiz Gonzaga, saudoso artista pernambucano que, cantando a música popular do Nordeste, contribuiu imensamente para dar visibilidade à cultura nordestina, tornando-se uma referência brasileira. Essa escolha da artista, revela, mais uma vez, sua conexão com a música e com a cultura popular brasileiras, que delineiam os temas de sua obra. A própria escolha de materiais, como os vitrais, as tapeçarias e a utilização de gamelas como suporte para a pintura, denota o valor que ela confere às formas artesanais de se fazer arte, expandindo em sua prática as possibilidades de vida, de trocas e de relações. 

Mas o título dessa exposição é também um convite. Um convite para pausar, vislumbrar o infinito e se reconhecer no mundo, no real. Olhar para o céu, essa multiplicidade que nos envolve, que é, em si mesma, o ritmo em que vivemos. E talvez, somente ao olhar para o céu é que iniciaremos nosso processo de conscientização da catástrofe iminente da queda do céu sobre nós, de que nos fala Davi Kopenawa Yanomami. 

Olhe para o céu, meu amor, isso é imprescindível.

Patricia Leite (Belo Horizonte, 1955) vive e trabalha em Belo Horizonte. 
Suas obras participaram de mostras coletivas institucionais como Aprendendo Com Dorival Caymmi - Civilização Praieira, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo (2016); The Circus as a Parallel Universe, Kunsthalle Wien, Viena (2013); Procedente, Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte (2008).

– Camila Bechelany

Menu