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Permanent Playfulness

31/08 2014 – 04/10 2014


Curadoria de Camilla Barella
Adrian Melis, Ahmet Ögüt, Beto Schwafaty, Deyson Gilbert, Irma Blank, Goran Trbuljak, Mladen Stilinović, Pilvi Takala, Paulo Bruscky, Paulo Nazareth, Robert Kinmont, Roberto Winter

– Vem brincar comigo, Tio.
– Desculpe, tenho que trabalhar.
– Mas quando você trabalha você está brincando, não?!
– Bem, quando eu brinco, eu estou trabalhando.


Robert Filliou transcreveu esta conversa, entre sua filha (na época com 7 anos) e seu irmão médico em seu livro Teaching and Learning as Performing Arts (1970). O artista sonhava com uma sociedade na qual a divisão entre trabalho e lazer fosse inexistente, na qual todos fossem ricos o suficiente para viver como pobres, e que todo o trabalho fosse exercido de maneira voluntária e engajado pelo prazer. Filliou baseou muitos de seus pensamentos nas teorias do socialista francês Charles Fourier, que propunha uma sociedade cooperativista baseada nas paixões e livre desenvolvimento da personalidade. Permanent Playfulness empresta o título de uma obra de Filliou, que além de artista e poeta, também trabalhou como operário na Coca-Cola, se formou economista, e por fim se dedicou anos ao budismo.

Até o momento de aceitar o convite para esta curadoria na galeria Mendes Wood DM, a arte na minha vida sempre foi uma atividade apenas relacionada ao lazer, um hobby que exerço no meu tempo livre. A ocasião de tornar meu prazer em trabalho, estimulou pensamentos que resultaram no conceito curatorial desta exposição, que questiona a possiblidade proposta por Filliou, de se viver em constante estado de recreação.

A palavra trabalho, em todas as línguas europeias, significa dor e esforço e é também usada para o ato do parto. Em francês e português, por exemplo, travail e trabalho tem a mesma raiz etimológica de trepalium ou tripaliu, um instrumento usado para tortura. A relação de trabalho com sacrifício, não é exclusiva da etimologia. A ideia de que hoje temos a liberdade de escolher a profissão de acordo com as nossas aptidões e desejos, e portanto o trabalho deveria ser uma atividade tão prazerosa e satisfatória quanto um hobby, é ilusória não apenas por ser uma realidade para uma pequena parte da sociedade, como também por desconsiderar que o sentimento de prazer da libertação da dor é muito mais intenso do que o prazer puro ou a ausência de dor.

Atenuar a linha entre lazer e trabalho, pode ter um sentido muito mais perverso do que Filliou propunha em sua ingênua Poética Econômica. Muitos políticos usam de teorias do trabalho como prazer a fim de uma sociedade mais produtiva economicamente. Francesco S. Nitti, político italiano, escreveu em seu livro Les Travail humain et ses lois que a ideia de trabalho como dor é um fato psicológico e não fisiológico, e que portanto a dor desaparecerá em uma sociedade onde todos trabalham. A teoria escrita em 1895 não poderia se provar mais falsa nos dias atuais. Em uma sociedade onde todos trabalham voluntariamente, mas motivados por necessidades financeiras muito mais do que pelo prazer, como uma vez sonharam Fourrier e Filliou, a dor em relação ao trabalho ainda é muito eminente. Para a maioria dos trabalhadores, a única verdade destas teorias é a do lazer como necessidade inferior ao trabalho, sem tempo ou opções para atividades de descanso e relaxamento.

O artista por outro lado, é visto pela sociedade como uma exceção, e a sua atividade encarada mais como uma recreação do que trabalho. O artista não escolhe uma profissão, mas é escolhido por uma vocação. Dentro deste contexto, o artista estaria sempre trabalhando e sempre brincando. Paulo Nazareth representa em Free all day (2011), assim como em toda sua prática artística e postura em relação ao mercado, a figura do artista como o homem livre. Mas se o trabalho do artista é também o seu lazer, o mesmo ao invés de livre pode ser visto em uma eterna prisão, e até durante suas horas de descanso de sono estaria trabalhando, como Mladen Stilinović representa em Artist at Work (1978), na qual registra a si próprio dormindo.

Ativista engajado contra o artista profissional, Stilinović defende a prática da preguiça como a mais importante para o artista se manter próximo da arte, e não se tornar mero produtor de objetos, assim como defendiam também Duchamp e Malevich. O pensamento do artista foi um dos pontos de partida para o conceito da exposição e segue representado em outras 3 obras que refletem sobre a dialética do trabalho em relação a dor e a falta de poder na impossibilidade de evitá-la em The Pain Game (1977), ao individualismo em Mine-Mine (1975), e ao tempo e valor em Substraction of Zeros (1993). A vivência no socialismo, possibilitou o exercício do ócio e impossibilitou a comercialização do seu trabalho por muito tempo, dois fatos que para o artista foram influências fundamentais no resultado de sua prática.

O cubano Adrian Melis também sofre influência do tempo em que viveu no regime socialista. Em sua obra The value of absence (2009–2010) discute a atitude dos empregados em relação ao trabalho nas companhias estatais de Cuba. Ao pagar o mesmo valor que estes funcionários receberiam por um dia de trabalho para que inventem uma desculpa e se ausentem do seu posto, Melis deixa explícito o sentimento de perda causado pela falta de motivação e identificação em relação ao trabalho dentro deste sistema.

Paulo Bruscky, assim como Stilinović, demorou anos para que sua produção tivesse um destino comercial, fato que nunca inibiu o ritmo de sua atividade como artista, a qual ele conciliou com o cargo de funcionário público em um hospital. Na obra Loteriartempo (1975) Bruscky propõe um jogo que torna qualquer participante o artista, subvertendo o sua atividade de artista ao outro, em um concurso com prêmio, júri e data duvidosos e aleatórios.

A obra de Deyson Gilbert também parte dos jogos de loteria para discutir aleatoriedade e efemeridade na arte, fé e economia. Os diversos bilhetes além de aludirem ao ato compulsivo e obsessivo do jogador; ao serem emoldurados se tornam objetos disfuncionais.

A artista Pilvi Takala documenta uma comunidade de jogadores de pôquer vivendo em Bangkok em seu vídeo Players (2010). Ela própria interpreta todos os personagens, enquanto um deles narra claramente a rotina e as regras sociais próprias do grupo, guiadas pelo raciocínio de jogo, competitividade e mínimo esforço.

Em seu trabalho Send him your money (2010), o artista turco Ahmet Ögüt, reencena uma performance do artista Chris Burden, que em 1979, durante uma hora ao vivo em uma estação de rádio, tentava persuadir os ouvintes a enviarem dinheiro para sua casa. Ögüt se apropria do texto mudando apenas o endereço para o seu.

O artista croata Goran Trbuljak evoca a efemeridade do trabalho do artista em registros fotográficos da ação que exerceu durante alguns domingos. Trbuljak pintava a vitrine de uma loja de materiais artísticos onde estava uma tela branca. A cada Segunda-feira suas Sunday Paintings (1974) eram removidas.

As esculturas de Robert Kinmont, Listen 3 (2010–2011) e Waiting and a broken letter (2014) guardam ideias cultivadas durante os 30 anos que ele não se dedicou à produção artística e montou uma escola experimental de arte, praticou budismo e trabalhou como carpinteiro. Ao recomeçar a trabalhar como artista, em 2005 aos 68 anos de idade, Kinmont demonstrou em sua nova produção o quanto não estar produzindo seus trabalhos e ativo no mercado não alterava em nada o seu pensamento criativo. O que demonstra uma total autonomia e consciência em sua relação com o tempo, também prova o quanto o artista está vulnerável e refém dos seus pensamentos e ideias.

Roberto Winter questiona em sua obra esta alienação da divisão do tempo de recreação e trabalho na sociedade contemporânea e também no caso exclusivo do artista, aceita como uma exceção plausível. Na obra que desenvolveu para a exposição, Alegoria Foxconn (2014), coloca em embate a produção artística, representada pela pintura de Veermer onde ele se retrata trabalhando, com a produção laboral dos operários da fábrica chinesa Foxconn, produtora de aparelhos Apple que registra alto índice de suicídio, sendo uma das hipóteses, como forma de protesto por direitos trabalhistas.

Já na obra da artista italiana Irma Blank, a ideia do tempo e do trabalho braçal se expressa em sua prática obsessiva e repetitiva em profunda dialética entre a escrita e o desenho. O abstracionismo do significado da escrita, que a cada série se torna mais intenso e deixando o gestual mais aparente do que o racional, alude a forma repetitiva dos trabalhos manuais e operacionais.

No video To Watch and To buy (2008–2010), Beto Schwafaty compara as diferentes ideias de espaços públicos, tanto de uma perspectiva de produção industrial, como também cultural, em uma montagem com imagens encontradas de ambientes de massa de trabalho, consumo e recreação, como shopping centers, combinadas com textos.

Como parte de uma geração e classe social que vive hoje uma situação muito similar ao que Fourrier defendeu no século dezoito e Filliou nos anos 70; tive a oportunidade de escolher voluntariamente minha profissão, motivada exatamente pelo livre desenvolvimento da personalidade. No entanto, o conceito que nos vendem hoje do trabalho totalmente submergido com a recreação me parece estimular a alienação na relação com o tempo ao invés de conscientizar. A tecnologia também proporciona que estejamos trabalhando de todos os lugares a todas as horas, somos seres wireless e supostamente isso nos libertou do ambiente de trabalho. Mas não teria talvez nos aproximado de uma prisão constante, onde o ambiente de trabalho hoje nos pertence e nos acompanha 24 horas por dia? Assim como acontece com o artista, que é escravo de sua mente criativa.

A luta por um equilíbrio entre o tempo recreativo e o tempo produtivo supostamente parece estar mais próxima dos operários da Foxconn do que de uma elite que exerce trabalhos intelectuais. Mas os iphones que eles produzem mecanicamente em um ambiente repressor e massificador, são os mesmos que supostamente nos libertou do ambiente de trabalho, quando de fato ocorreu uma transferência e invasão do trabalho na vida privada e recreativa. Esta ilusão na qual insistimos em acreditar, apenas distancia ainda mais a possibilidade de uma divisão justa entre trabalho e lazer, tanto para o trabalhador intelectual, quanto para o operário e por fim o artista.

Permanent Playfulness pretende por meio dos artistas e obras escolhidas, estimular um pensamento de conscientização da relação do tempo do homem com o trabalho, o lazer, a dor, e o prazer. Não seria a saída equilibrar estes elementos em nossas horas, ao invés de coloca-los sob a mesma ótica ao ponto da alienação total? Como Lucretius uma vez indagou: Você não vê que a natureza clama por duas coisas apenas? Um corpo livre da dor e uma mente liberada das preocupações?


– Camilla Barella

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