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Poema N° 0000000000000000000000000000,9


03/10 2015 – 07/11 2015


Curadoria de Supportico Lopez para Mendes Wood DM
Julian Beck, Henri Chopin, Adriano Costa, Lenora de Barros, Natalie Häusler, James Hoff, Karl Holmqvist, Gregorio Magnani, Zin Taylor 

Não é possível, não se pode continuar com a Palavra toda-poderosa, a Palavra que impera sobre todos. Não se pode seguir admitindo-a em todo lar, e ouvi-la em todos os cantos descrevendo-nos, descrevendo acontecimentos, dizendo-nos em quem votar e a quem devemos obedecer. Pessoalmente, prefiro o caos e a desordem que cada um de nós se esforça para dominar, com nossa própria engenhosidade, à ordem imposta pela Palavra utilizada por todos indiscriminadamente, sempre para o bem de um congresso, da igreja, do socialismo, etc...[…] Eu prefiro o sol, aprecio a noite, aprecio meus barulhos e sons, admiro a imensa complexidade de um corpo, gosto dos meus olhares que tocam, meus ouvidos que veem, meus olhos que recebem.... Mas não tenho de ter a benção da ideia escrita. Não tenho de levar uma vida derivada do inteligível. Não desejo me sujeitar à palavra verdadeira que sempre confunde ou mente, não suporto mais ser massacrado pela Palavra, essa mentira que se abole no papel. 
Henri Chopin, Why I am the author of sound poetry and free poetry [por que sou autor de poesia sonora e poesia livre], 17 de janeiro de 1967 


Poem no 0000000000000000000000000000,9

O número do poema é o próprio poema, e a vida do poema é a vida do próprio artista. O artista como estrutura do poético, vivendo como palavra livre em um círculo de capacidades. É assim que a poesia influencia a prática de fazer arte, uma atmosfera emocional expressada por correspondência direta entre sons, palavras, sentimentos e conotações.

Como certa vez disse Chopin: A arte deve ser valorizada como um vegetal, ela nos alimenta de maneira diferente, isso é tudo. De acordo com essa perspectiva, vemos a poesia ligada à arte como aquele momento em que a palavra se liberta e deixa de ser um veículo inanimado de significado e estabelece sua própria existência no domínio da experiência física. Com a grande tradição da poesia concreta brasileira em mente, a exposição na Mendes Wood DM tem o desafio de oferecer um fragmento contemporâneo da experiência proporcionada pelo Gruppo Noigandres em 1956, quando expuseram pinturas, esculturas e poemas-cartaz lado a lado pela primeira vez no país.

A arte produzida por Karl Holmqvist é subversiva, uma subversão suave que se torna ainda mais evidente quando repetida e revelada como pano de fundo para futuros encontros e entendimento. Os desenhos expressionistas vanguardistas e abstratos de Julian Beck (feitos entre 1944 e 1958, quando trabalhava com a galeria Art of this Century de Peggy Guggenheim) prevê a corpo/experiência político-poético do seu Living Theatre e, pela simplicidade do processo, parece profundamente conectada com a autoridade teatral honesta e instintiva de Adriano Costa. É interessante notar como em uma exposição como esta as palavras de Waldemar Cordeiro surgem como possível introdução à obra de Zin Taylor: A arte representa os momentos qualitativos de sensibilidade elevados ao pensamento, um 'pensamento em imagens; ou a forma de pensamento que Taylor geralmente denomina e descreve como sua tentativa de organizar ideias em imagens concretas. A posição de Lenora De Barros é bastante intrigante com relação à toda a estrutura da mostra; ela age como ponte entre a faceta mais profunda da palavra como produção da língua e o gesto performativo que a ativa. Essa linha imaginária que conecta as possibilidades poéticas de Beck e a expressividade tipográfica de Chopin encontra no poeta/performer brasileiro o tradutor perfeito, o fio que conduz a estrutura da mostra a uma possível afirmação. A prática de James Hoff, melhor dizendo, a vida de James Hoff, é permeada pela presença do texto como experiência contínua. Sua obra como artista, editor e músico combina todas as possíveis experiências da língua com uma ampla variedade de suas possíveis distorções e desvios. Os vírus, elementos centrais da sua produção mais recente, tentam definir a dimensão da língua para atuar como motor para a criação de novas formas e possibilidades da língua, em vez de destruí-la. Natalie Häusler realiza uma pesquisa extremamente cuidadosa da geografia da poesia, resultando em um diálogo pessoalmente estruturado e contínuo entre o poema escrito e o poema como visão. Com Gregorio Magnani, fica fácil se fascinar com a beleza do livro. O livro como objeto, o livro como narração, o livro como obra de arte. As publicações de diferentes artistas escolhidos por Magnani se fundirão com a forma de exibição da mostra, redefinindo, se assim desejado, a identidade da obra de arte, pensando, citando Robert Barry, que ...durante anos as pessoas se preocuparam com o que acontece dentro da moldura. Talvez exista algo fora da moldura que possa ser considerado ideia artística....


– Supportico Lopez

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