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Risco do Tempo

14/04/ 2012 – 05/05 2012


A Mendes Wood DM tem o prazer de apresentar a primeira mostra da artista mineira Sonia Gomes na galeria. Não por coincidência suas obras se edificam sobre tecidos antigos, passados. A obra da artista parte de um pressuposto bergsoniano onde todo material está imantado de latência de vida. Se riscos de bordados se tornam a matriz, se um desenho ou se a arquitetura de um vestido dá origem a uma torção (esculturas de pano, assim chamadas pela artista), é porque não há separação entre materia e vida na obra de Sonia. 

No trabalho de Gomes o agente criador é o próprio corpo da artista, a matriz. E nesse sentido. nota-se a presença de um elo vital entre artista e trabalho. O participador se coloca quase em um lugar de “testemunha” sobre o evento de simbiotização entre essa matéria (tecidos, vergalhões, papeis) e corpo (seu corpo e também nosso). Há sem dúvida um acesso a memória ancestral, que segundo a artista, esbarra em questões de identidade racial, sobretudo ao manter-se radicalmente fora do discurso, em estatuto de diferenca, onde obra reside.


Leia abaixo a entrevista com a artista: 

De onde vem o seu trabalho?
Faço arte para me expressar, não sei de onde vem, mas sinto que precisaria viver 200 e muitos anos para concluí-lo. Não há dúvida que há articulações com o passado, mas essa temporalidade vem da crença, de que tudo que passou pode ser trazido novamente à vida. 

O trabalho nesse sentido tem um cunho de indentidade racial ou memória da escravidão?
O meu trabalho vem do inconsciente e minhas escolhas são pouco objetivas. O mundo é extraordinario, cheio de diferencas, isso me interessa. Sou negra, a cultura é forte, e mesmo não tendo esta preocupação, está explicito no trabalho.

Quais são os temas do seu trabalho?
Procuro dar vida e movimento em tudo que faço, não existe separação entre o meu trabalho e minha vida. É tudo uma coisa só. Assim como minha casa, minha cama, colares e roupas, são sempre transformados por mim. É necessario faze-lo, é necessario faze-lo, é tudo que sei.

Você se lembra de onde poderia ter surgido o seu trabalho? Alguma referência de sua infância?
Minha avó era parteira e bezendeira, referências fortes e importantesde do meu passado. Afinal ela trabalhava com vida, ela está muito presente em mim.

Eu tento me colocar em tudo o que faço e assim as minhas memórias fazem parte da obra, arte e vida para mim são uma coisa só. Sinto que a arte invadiu minha vida em um momento muito remoto. A sensação é que se você artista, você não escapa, transforma isso em libertação plena ou em prisão. 

E sobre os materiais, como é trabalhar com coisas usadas velhas e antigas?
O material chega vivo no meu atelier, pedindo socorro. As pessoas trazem coisas de família, um cobre-leito ou toalha de mesa… Pedaços da vida. Um dia desses um amigo disse; “Minha mãe me deu esse cobre-leito quando era pequeno e agora, sei o que fazer com ele. Quero confia-lo a você!” Recentemente a familia de uma grande bordadeira, Alva Horta de Azevedo Cruz (a quem presto uma homenagem), me confiou um acervo com grande quantidade de bordados e “RISCOS”, entre eles um de 1945. Veja bem a minha responsabilidade… 

Há relação entre arte popular brasileira e seu trabalho?
Meu trabalho transita entre o popular e o erudito.

Existe algum preconceito relacionado isso?
Da minha parte não. Adoro arte popular, na verdade. Gosto da mistura entre os opostos. Essas categorias não me interessam. Gosto dos contrastes.

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