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Saudade do Brasil

11/04 2015 – 23/05 2015


Saudade do Brasil (1920) é o título de uma suíte para piano em doze partes composta por Darius Milhaud depois de sua estada brasileira de 1917–18. Cada dança da peça leva o título de um logradouro brasileiro, referindo as paisagens cariocas que o fascinaram quando serviu em missão diplomática no Rio. Milhaud foi profundamente marcado pela música popular brasileira, o que já se revela em peças como Le Boeuf sur le Toit e L’Homme et son Désir. Por seu intermédio, a música brasileira inscreve sua influência na paisagem da música do século 20, sobretudo na vanguarda francesa dos anos 1910 – 1920. A percussão e a polirritimia, absorvidas por meio da música de matriz africana e da de Villa-Lobos (Uirapuru, 1917), são reconhecidaos como atributos da obra de Milhaud. Saudade do Brasil (no singular, ai, que saudade do Brasil!) aparece na primeira estrofe do samba Adeus, América, de Geraldo Jacques e Haroldo Barbosa. O samba mandou me chamar, diz a letra. E repete: O samba mandou me chamar

Saudade do Brasil é o título de uma música gravada por Tom Jobim no estupendo álbum Urubu (1976). Ali, Jobim dá forma instrumental a um espírito exaltador, referindo-se indiretamente ao seu dialético transbordo musical EUA – Brasil. Na narrativa esquemática da bossa nova, Tom entrega o gênero aos americanos, que a transformam em algo inominável. Águas de Março, no início dos anos 1970, seria o ponto de redenção do maestro. Em Urubu, a fronteira entre nacional e universal, erudito e popular é redefinida a cada compasso. Saudade do Brasil é uma espécie de colagem- manifesto disso tudo, com ecos de Villa-Lobos, Pixinguinha e Ary Barroso, Ravel, Debussy e Gershwin. 

Saudade do Brasil (2015) é o título de uma nova série de pinturas de Patrícia Leite. Como iconografia de partida, elas se utilizam de imagens do desfile que o Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira fez, em 1992, em homenagem a Jobim. Os principais quadros da série são as Alegorias, feitas a partir de capturas de tela, em baixa definição, do desfile, cujos fragmentos são recombinados nas pinturas e totalmente reinventados. Há, nessas obras, uma continuidade do uso de imagens preexistentes e de uma investigação sobre o movimento, algo que aparecera, por exemplo, na série Zabriskie Point (2012). Aqui, porém, aprofunda-se um problema caro à artista: o dos limites propositadamente borrados entre arte erudita e arte popular, o que já se anuncia nuns tantos quadros seus anteriores, em que a temática da arquitetura e da pintura vernaculares está presente. 

Os precedentes de Leite podem vir de Zizi Sapateiro, Lorenzato ou Nello Nuno, (anti)-heróis regionais cujas pinturas teimam em não viajar bem, mas os Parangolés não estão longe demais. Jobim na Mangueira (erudito para o samba, popular para a sala de concerto) parece o caso perfeito. O próprio affaire bossa nova, antídoto de alegria à fossa dos anos 1950, paira como paradigma (que coisa linda, que coisa louca, Chega de saudade!). Essas suas composições são noturnas, sensuais, excitadas, dançantes. Paisagens transfiguradas, enquadradas pela arquitetura da avenida e do carro alegórico. A alegria é a prova dos nove.

Um quadro como Alegoria II (todas as obras são de 2015) tem algo extraordinariamente orgânico, solto, espontâneo. Arrebatado, mas não de forma romântica; dinâmico, mas não esquemático. A composição é facilitada pelo elemento figurativo mais reconhecível, uma guirlanda de lâmpadas que, ao mesmo tempo em que divide o espaço, o amacia, cindindo-o horizontalmente e curvando-o. Os demais elementos se aproximam e se distanciam dessa linha, gerando ritmos e movimentos que são potencializados pelo recurso de sua repetição, explorado ao longo dos vetores verticais, como se o carro alegórico passasse diante de nossos olhos. Alguns desses elementos estão como que deformados por esse movimento, e a soma desses acontecimentos cria um corpo coletivo, não necessariamente humano, feito de arabescos fitomórficos matisseanos, duas cabeças de tucano, fragmentos de alegorias e fantasias carnavalescas, e assim por diante. Estamos diante da interpretação da experiência do Carnaval. 

Em outras pinturas sobre Alegorias, as questões pictóricas multiplicam-se: simultaneidade, velocidade, organicidade, composição, textura. Para não dizer da cor, deliberadamente vibrante, explosiva, selvagem. Em Alegoria I, o emprego expressivo da textura e a maestria no jogo de figura e fundo são a tônica, mas uma riqueza de decoração não deixa esquecer que estamos na passarela (ou seria no jardim? ou na selva?). Áreas de pinceladas vivas e de fundos monocromáticos sobrepõem-se e criam lógicas alternadas; mas não há sinal de uma clara perspectiva dominante, tampouco. A abstração e a pintura dita popular (um rótulo que cada vez mais revela seu próprio limite classista e autoritário) estão em constante troca. Num dos pequenos quadros preparatórios feitos para a exposição, é como se estivéssemos no meio da Festa do Divino. Um outro, o retrato de Tom Jobim como destaque da alegoria, tem título afetivo, Tonzinho, no diminutivo que o poeta Vinicius de Moraes usava para chamar o maestro. Uma análise detida dessas imagens ecoa a célebre frase de Debussy a Stravinski: O ar deve ser de novo preenchido com beleza. 

Parece-me que, para Patrícia Leite, a pintura seja, primordialmente, mais que um meio, um ofício. O fato de que ela escolha para pintar coisas importantes para ela, como a música e a figura de Jobim, mediadas pelo tributo da Mangueira, essa invocação pelo samba (o samba mandou me chamar) podem aparentar ser extremamente simples, mas guardam uma relação intensa com algo que anda muito esquecido. Estou me referindo aqui à arte e ao diálogo, por meio dela, que os artistas estabelecem. Não se trata de citação, mas da possibilidade de haver, de fato, uma interrupção das pressões temporais do presente por meio da arte, um diálogo entre mortos e vivos, centrais e periféricos, populares e eruditos, através dos séculos, em lugares diferentes do mundo. Sua pintura não responde às perguntas que vêm de fora (do jornal, da falta de água, da política partidária, da internet, do restaurante da moda), mas têm antes uma força que é mais importante e mais necessária agora. 

No vasto anedotário jobiniano, seu lado frasista se destaca, inclusive naquelas sobre o Brasil. Esta, talvez, seja mais que oportuna: Viver no exterior é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom. Nas memórias dos amigos, seu espaço de trabalho é muitas vezes descrito como misto de sala de música e biblioteca, onde dicionários se destacam sobre partituras. A imagem de uma pintora cercada de discos não é tão diferente. 

Patricia Leite (Belo Horizonte, Minas Gerais), vive e trabalha em Belo Horizonte. Leite esteve presente em numerosas exposições coletivas, que incluem, Noite Azul Elétrico, Mendes Wood DM, São Paulo (2013); The Circus as a Parallel Universe, Kunsthalle Wien, Viena (2012); Procedente MAP: novas aquisições, Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, Brasil (2008); Prospecções / Arte nos Anos 80 e 90, Palácio das Artes, Belo Horizonte (1997); Utopias Contemporâneas, Palácio das Artes, Belo Horizonte (1991). Suas exposições solo incluem, Fresta, Mendes Wood DM, Sao Paulo (2012); Outra Praia, Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte (2005/06); Centro Cultural Cândido Mendes, Rio de Janeiro (1992). 

– Rodrigo Moura

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