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Texto

CAPÍTULO 1
Um velho camelo, que carregava turistas nas costas desde que teve idade suficiente para trabalhar, estava cansado demais para continuar a cumprir sua tarefa. A poluição da cidade o sufocava e ele não conseguia mais se levantar ao sentir o peso de um homem acrescentado ao seu próprio peso. Suas pernas tremiam e a dor o fazia gritar. Seu patrão, que havia cuidado dele desde o início,  aconselhou que fizesse um descanso no deserto. Sob um sol ardente e um calor infernal, o camelo caminhou e caminhou na mesma direção até perceber, de repente, que a paisagem não mais mudava: ele estava no deserto. Ele estava perdido.

Desde que camelo é camelo, isso nunca tinha acontecido.

CAPÍTULO 2
Uma pequena raposa-do-deserto que estava passando entendeu a situação rapidamente. Ela sugeriu que o camelo a seguisse até um pequeno poço onde ela havia se instalado com sua numerosa família. “Lá temos água”, ela disse, “e a vida é boa. O único inconveniente é que não há como se proteger do sol”. O camelo, que tinha ouvido apenas metade do convite, já imaginava um paraíso verde. Quando chegaram, o velho camelo, pingando de suor, se entregou à beira d’água. A enorme corcova do camelo produziu uma bela sombra escura no chão. A pequena raposa-do-deserto, que sonhava em tirar uma sesta num lugar fresquinho, aproveitou a oportunidade e pediu ao camelo: “Camelo, posso me deitar ao seu lado?  Você me protege do sol?”.

Desde que raposa é raposa, ninguém nunca tinha pensado nisso.

CAPÍTULO 3
O camelo concordou sob uma condição. Se ela quisesse usar sua sombra, teria que trazer-lhe uma pequena pedra em troca. A raposa ficou satisfeitíssima. Uma pedra não era lá grande coisa. Embaixo da pedra escolhida pela raposa, vivia uma colônia de formigas.  Uma dúzia de formigas surpresas saíram em busca de um novo abrigo. As irmãs e os irmãos da raposa que, normalmente, cavavam tocas na areia para descansar, também preferiram trocar pedras por uma soneca à sombra da corcova do camelo. Todas pararam de cavar e começaram a colecionar pedras e rochas com grande determinação. O camelo aceitou todos os recém-chegados. Ele simplesmente pedia que as pedras fossem colocadas uma em cima da outra, em uma longa linha. Dessa forma, podia ver sua coleção crescer. E assim, um muro foi rapidamente construído, enquanto centenas de formigas, com as quais ninguém se importava, corriam sob o sol flamejante. “Alguém viu alguma pedra?”, elas corriam perguntando umas às outras.

Desde que formiga é formiga, ninguém tinha visto isso.

CAPÍTULO 4
A notícia se espalhou pelo deserto e grandes caravanas de raposas-do-deserto apareceram no poço, cada uma com uma pedra entre os dentes e uma ideia fantasiosa de paraíso diferente. Eram cada vez mais raposas e cada vez menos sombra. E quando a última raposa a chegar não encontrou mais espaço para se deitar nem na sombra da corcova nem na sombra do muro... O camelo acordou a pequena raposa. Ele explicou que, se ela quisesse continuar a dormir ali, teria que trazer outra pedra. O camelo esclareceu: “Eu quero ser justo. Tenho que pensar no bem-estar de todos. Quanto maior for o muro, maior será a sombra e todo mundo ficará feliz.” Mas quase já não havia pedras no deserto. As raposas tinham que viajar cada vez mais longe para encontrá-las.  Elas voltavam cada vez mais exaustas de suas expedições. Às vezes, elas brigavam pelos raros minerais que ainda existiam. O camelo ficou sabendo do problema. A partir de então, ele aceitaria qualquer tipo de contribuição, até mesmo as mais pequenas, em troca de cochilos de um tamanho proporcional ao tamanho da pedra ofertada. Desde que camelo é camelo, essa foi a melhor solução.

CAPÍTULO 5
Centenas de formigas, cansadas de se mudarem de casa, se juntaram para cavar o maior túnel já cavado. Quanto ao camelo, ele já nem se movia mais, a não ser quando o sol mudava de lugar e a sombra do seu muro não mais o cobria por inteiro. Na terceira vez que o camelo despertou a pequena raposa-do-deserto da sua sesta para lembrá-la de ir buscar outra pedra, ela bocejou e passou por cima das outras raposas deitadas à sua volta. E disse: “Por que não começamos a cavar tocas como fazíamos antes?”.  “Ah (bocejo), é claro, isso seria muito mais fácil. Mas como podemos abandonar um muro que exigiu tanto do nosso esforço e investimento para ser construído?” A raposa não insistiu e deixou a ideia para trás. Desde que raposa é raposa, ninguém nunca tinha pensado assim.

CAPÍTULO 6
Resignada, a pequena raposa-do-deserto saiu em busca de novas pedras. À distância, ela avistou o começo de uma tempestade. Voltou correndo para avisar seus amigos. Alguns deles não quiseram deixar seu abrigo e perder o lugar na sombra (raposas não são estúpidas), enquanto outros correram para o enorme empreendimento das formigas implorando para que fossem recebidas.  As formigas, naquela ocasião, estavam divididas, as raposas-do-deserto não conseguiam parar de brigar e o camelo assistia tranquilo. A primeira rajada de vento fez com que o muro tremesse – e que as formigas e as raposas tremessem. As discussões se intensificaram, relâmpagos assolaram o céu e a chuva começou a bater no chão seco. O camelo levantou suas duas corcovas e subiu em seu muro, as raposas-do-deserto levantaram as suas orelhas – dezenas de orelhas esticadas, golpeadas pelo vento –, enquanto isso, as formigas se uniram até formar um barco. E não parava de chover. Desde que formiga é formiga, ninguém nunca tinha visto algo assim.

EPÍLOGO
Ao amanhecer, a luz do sol brilhava sobre a água parada. Não longe de duas pequenas ilhas em forma de corcunda, rodeadas por um aglomerado de capim-orelha, uma colônia-barco se via à deriva. Era um novo mundo. Desde que deserto é deserto, isso nunca tinha acontecido.  

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