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13/10 – 16/12 2017


Eles chegaram e o homem apareceu. Ele era um veado. Eles se aproximaram e cortaram sua carne. Eles juntaram vespas, zangões e abelhas e os colocaram dentro da pele [eles deixaram a pele por lá] e foram para casa. Quando eles deram a carne à mãe deles, ela disse: Vocês enlouqueceram? Vocês mataram o seu pai [...] Ela saiu e foi para a montanha [...] ela gritou e gritou no pé da montanha. Ninguém respondeu. Ela achou a pele recheada de insetos e disse para ela: Qual é o seu problema? Por que você não diz nada? Mas como é que ele poderia falar sendo apenas uma pele. Ela colocou o punho dentro do ouvido, e as abelhas, zangões e vespas romperam a pele e a picaram, [quando ela chegou em casa] os seus filhos disseram: nós preparamos um banho de vapor para você se recuperar. Eles fecharam a porta e não deixaram que ela saísse. Ela nunca saiu, mas subiu e se transformou no espírito do banho de vapor. Os filhos saíram e se foram para longe. Eles encontraram uma cobra. Eles tiraram os seus olhos e eles eram muito bonitos, então eles fizeram uma corda e subiram até o céu. Um deles se transformou em um olho e em metade da cobra, e o outro na metade do olho da cobra. 

A exposição tem dois personagens principais:
um calendário do tempo-espaço
uma pele compartilhada

O ato de medir — seja a distância ou o tempo — significa desenvolver um engajamento material com o mundo que é ao mesmo tempo prático e conceitual. A exposição explora a prática da escultura como uma pele expandida que envolve o tempo e o espaço.

O tonalpohualli é uma tecnologia cosmológica para contar o tempo. Além de medir o tempo, é um sistema adivinhatório que emaranha coordenadas espaciais, agricultura e sacrifícios rituais. Os deuses, acontecimentos e outros elementos que o calendário transmitia como se fossem agouros determinavam as maneiras em que as pessoas conduziam suas atividades e até o tipo de pessoas que elas possivelmente se tornariam. 

O tonalpohualli é um calendário de 260 dias composto de 20 símbolos de dias e 13 números. Cada dia é a combinação de um símbolo de dia e um número, e eles avançam concomitantemente até que todas as combinações sejam esgotadas (20x13=260). O dia 1 Crocodilo sempre é seguido de 2 Vento, 3 Casa, 4 Lagarto e assim por diante, até que o ciclo mais curto de 13 dias termina com 13 Cana e é sucedido por 1 Jaguar, 2 Águia e assim por diante.

O calendário foi retratado em manuscritos visuais chamados tonalamatl, uma combinação de tonal (dia) e amatl (papel) Nesses livros, os dias eram representados visualmente em diferentes permutações de acordo com os diferentes ciclos do calendário. Os livro também continham conhecimentos astronômicos e médicos, ideias sobre profecias e protocolos para rituais.

Os livros eram feitos de pele de veado ou de papel, normalmente dobrados à maneira de um biombo. O papel era um material importante na cosmogonia indígena, amplamente usado não apenas para manuscritos, mas também para objetos de rituais, como ornamentos corporais, roupas e oferendas.

O papel tem uma relação próxima com o corpo. Por exemplo, bonecos de papel são encharcados com borracha, resina, sangue e depois queimados. nesse caso, o boneco de papel toma o lugar da vítima sacrificada.

A ligação entre o corpo e o meio-ambiente está presente no calendário. Por exemplo, os símbolos dos dias e as partes do corpo têm uma correspondência. A seiva da árvore de Amate, usada para fazer papel, era o sangue, a fumaça do fogo era o fôlego humano, e a casca de árvore era a pele humana.

No calendário, a divindade Xipe Totec era frequentemente retratada na forma de um homem usando a pele esfolada de outro homem sobre a sua própria. A cerimônia consistia no sacrifício da vítima e na transfiguração de outra pessoa ao vestir a pele do sacrificado.

O conceito Nahua de ixiptla deriva da partícula xip, que significa pele, cobertura ou concha. Uma camada externa natural de tecido que cobre o corpo de uma pessoa ou animal, a pele pode ser separada do corpo para produzir roupas, recipientes para armazenar líquidos, ou pergaminho como uma superfície para escrever. A noção de ixiptla já foi entendida como imagem, delegado, personagem ou representante. Ixiptla pode ser um recipiente, mas também a atualização de um poder infundido em um objeto ou pessoa. Na cultura Nahua, tomou a forma de uma estátua, uma visão ou uma vítima que se transformou em um deus destinado a ser sacrificado. Sem terem que se parecer visualmente, vários ixiptlas do mesmo deus podiam existir simultaneamente.

A pele do veado e o papel funcionam ao mesmo tempo como suporte e como significantes ritualísticos. O livro dos dias parte de uma pele e se torna um corpo. A página 20 do códice Borgia mostra um veado com os 20 símbolos de dias atribuídos a diferentes partes do seu corpo. Um corpo-veado-calendário de pele. O códice Tudela tem uma imagem semelhante de uma pele de veado estendida com os símbolos de dias inscritos em diferentes partes do seu corpo.

A associação entre homem e veado aparece em diversas narrativas, incluindo a história relatada no início deste texto. O veado é a oferenda do sacrifício por excelência, e também uma criatura que pode se transmutar em outra coisa. Mais uma vez, é um jogo de substituições e transmutações que parte da pele e de sua materialidade. Na cosmogonia indígena, o material dá forma, identidade, materializa, mas também substitui e personifica, não apenas por analogias visuais mas também por meio de relações materiais sutis.

Pele e papel parecem compartilhar a mesma natureza, como a embalagem ou o envoltório de plantas, humanos e animais. Essas são as bases materiais e simbólicas do calendário tonamalatl conhecido até hoje.

O conjunto de trabalhos nesta exposição compartilha a mesma pele, uma pele para pensar. Não é uma pele contida, mas uma pele que pode ser compartilhada, funcionando como um tecido estendido entre diferentes corpos. 

Mariana Castillo Deball nasceu na Cidade do México em 1975 e vive e trabalha em Berlim. Suas exposições mais recentes incluem The History of Infamy [A História da Infâmia], LACMA, Los Angeles (2017); Bienal de Sharjah 13: Tamawuj (2017); Feathered Changes, Serpent Disappearances [Mudanças rápidas, desaparições traiçoeiras], San Francisco Art Institute (2016); Cronotropo, Musée Régional D’art Contemporain Languedoc-Roussillon, Sérignan (2015); Parergon, Hamburger Bahnhof - Museum für Gegenwart, Berlim (2014); dOCUMENTA (13), Kassel (2012); Between you and the image of you that reaches me [Entre você e a imagem de você que me alcança], Kaleidoscopic Eye [Olho Caleidoscópico], Kunst Halle Sankt Gallen (2010).

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