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Wabi-Sabi – Nada se ensaia. Procura-se a falha

05/02 2011 – 19/03 2011


A Mendes Wood DM tem o prazer de apresentar Wabi-Sabi – Nada se ensaia. Procura-se a falha, mostra coletiva curada por Thereza Farkas, com co-curadoria de Julia Sander e Matthew Wood, que reúne uma seleção de nove jovens artistas brasileiros não representados pela galeria, que dá início à sua programação de 2011 abrindo espaço para novos talentos selecionados pelo olhar de três jovens curadores.

A tensão inerente à relação do homem com a natureza é questão que permeia todas as obras apresentadas em Wabi-Sabi, onde enfatiza-se também a compreensão, ainda que dolorida ou ressentida, da condição transitória do homem. 


A temporalidade das coisas é chave fundamental para a compreensão da leitura que se propõe em Wabi-Sabi: uma exposição desenhada pelas linhas do tempo e com a coragem de produções que correm o risco de um tempo não planejado. Em Outono, Outrora, contrária à permanência do ferro fincado na arquitetura, existe a imprevisibilidade da forma da planta que se modifica à medida que o tempo passa, de maneira que nos escapa determinar os passos de sua transformação. Nos pequenos naufrágios emoldurados pela artista Guga Szabzon, o tempo de efeito da água sobre as obras é que determinará a fragilidade dos territórios mapeados e abandonados no interior de cada aquário. Em Bastille, a oxidação permanente da figura da Bastilha em chapa de metal é representação da história da humanidade tentando manter-se viva através dos mecanismos de uma memória fantasiosa como aquelas que guardamos de nossa infância.


A beleza do caráter incontrolável destes trabalhos é também do tempo da natureza – o tempo de um ciclo vital perfeito em sua completude. Adesivos Par Avion, do artista Michel Zózimo, é um lembrete de que somos seres vivos e, portanto, perecíveis; o homem é efêmero, definha, morre – assunto também trabalhado pelo artista Theo Craveiro em Vanish, onde a vaidade humana é colocada em xeque com bastante naturalidade. Aqui, o mistério acerca da morte é tratado como nos truques das mágicas infantis, sempre fascinantes aos olhos curiosos de quem os vê pela primeira vez; quando revelados, deseja-se que tivessem ficado para sempre com o benefício da dúvida.

A tentativa frustrada – e muitas vezes desesperada – do homem de enfrentar sua própria condição não poderia deixar de ser comentada no contexto desta mostra. A natureza não tem tempo nenhum; o que tem tempo é a experiência subjetiva do homem; é o homem que, estando no mundo como sujeito, ao se integrar no mundo, constrói uma temporalidade, e o tempo nasce da experiência humana de estar no mundo, foi o que pensou o filósofo alemão Immanuel Kant. Essa ideia é traduzida nesta exposição em alguns trabalhos que burlam as ferramentas confeccionadas para medir o tempo [duração dos seres sujeitos à mudança da sua substância ou a mudanças (…) apreciáveis pelos sentidos orgânicos] [1], revelando assim o embate elaborado pelo próprio homem. A engenhoca de uma ampulheta acionada pela ação do pisar e a fotografia da mão que freia o ponteiro dos segundos num relógio concretizam, a qualquer custo, o desejo do homem de controlar o tempo esculpido por ele mesmo.

Da mesma forma, tanto no trabalho de Henrique Cesar, onde o timer do liquidificador forja a desorganização de um ciclo através do atrito entre materiais imiscíveis, tentando a desconfiguração da natureza química das composições, quanto nos instantes da pausa para o cigarro, colecionados pelo artista Lucas Dupin como uma tentativa de construir uma linha do tempo infinito pela reutilização desses momentos, são ironizadas as invencionices humanas construídas na tentativa do homem de se colocar e se fazer presente diante de uma situação dada pela natureza (in a given situation).

As obras apresentadas nesta mostra nos remetem ao conceito japonês Wabi-Sabi: a arte de encontrar beleza na imperfeição e profundidade nas coisas efêmeras; de aceitar o ciclo natural de crescimento, decadência e morte; de celebrar as frestas, fissuras e todas as outras marcas do tempo.


[1] Parte da definição do verbete “tempo”. Michaelis Moderno Dicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: Editora Melhoramentos Ltda., 2010.


– Thereza Farks 

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